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Estalos de Leitura #28 – Rafael de Campos

Todos nós, em momentos específicos da vida, precisamos de um “reboot”, uma reinicialização. Isto é, retornar ao início para podermos rememorar o frescor, as vibrações, os sentidos e, então, começar a reviver de forma diferente, sem continuidade com a vida anterior, uma nova história. Muito do que hoje vivemos, vivemos no automático, no programático. Um “reboot” – diferente do “remake” – não irá anular quem somos mas irá dar uma nova vida dentro da vida fraturada que vivemos. Parece fácil falar disso; no entanto, a prática exige uma constante desconstrução para construir em novo alicerce.

Há acordes monótonos, sempre iguais, que se tornam infinitos de uma melodia. Há dias que sua infinitude basta para que uma vida continue seu canto.
Existem palavras únicas, cheias de sentido para uma vida que deseja acreditá-las e vivê-las. Há o primeiro amor; há a primeira vez para tudo. Se canta para viver, vive-se para cantar; do amor se ama para viver amando.
A vida contínua, passageira, renovável muda, cria, gera… A vida se explora, se reverbera; tende a ser prolixa, a de ser prologal e prolongada.
Mas afinal, entre acordes únicos, se quer infinita mais do que a própria existência; que seja o mesmo canto, uníssono, respiração.
Mesmo que tenha uma palavra apenas o repertório, o que mais se quer é ganhar a chance de continuar, para que não se cante o fim, o prado, o laudatório.
A vida, a melodia, o amor e o seu canto são acordes monótonos em meio as nuances multiforme. Ela nos dá tudo o que precisamos para iniciar e para fechar o ciclo com maestria; o epílogo é o fôlego da única palavra/história que te fez vida, que te ensinou a viver e a se fazer e moldar na estrada de todos.
Cabe a cada vivente encontrar a palavra única, o som monótono, o acorde imperfeito, o primeiro amor para cantar a maravilha.

Hannah Arendt, em “A Condição Humana” (1958), já previa essa ausência de pensamento por parte humana e essa ‘entrega’ fulgaz da vida aos dados quantificadores – fruto do arcabouço de ideais modernos, principalmente o da descoberta do ponto arquimediano interior (introspecção) e a perda do senso comum.
RCampos…

“Byung-Chul Han: “Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual… Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba”, afirma o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo”.

“[…] Noto que estou envelhecendo; um sintoma inequívoco é o fato de que não me interessam ou surpreendem as novidades, talvez porque observe que nada de essencialmente novo há nelas e que não passam de tímidas variações. Quando era jovem, atraíam-me os entardeceres, os arrebaldes e a desventura; agora, as manhãs do centro e a serenidade. Já não brinco de ser Hamlet […]”.
___________________Jorge Luis Borges, conto: O Congresso.

“Noto” que minha juventude, mesmo tendo idade suficiente para não ser mais um jovem, revigora e, ainda, me faz encantado pelos entardeceres, pelas cercanias e pela má sorte da vida. Sobre variações de novidades, estou sob efeito de Borges.

A melodia diz que somos “cara [rosto] entre as caras na multidão” – o que prenuncia o presente estado de solidão – onde estar rodeado de gentes não configura acesso a todas as pessoas; fala de sermos mais um entre muitos; fala de solidão mas, também, pode refletir condição de “isolamento”: essa sim, algo anormal.

Dizia Borges não sofrer por solidão, pois “já é bastante esforço alguém tolerar a si mesmo e suas próprias manias”. Solidão é estar consigo mesmo e se deleitar e delirar nisso. É compreender-se numa concomitante compreensão da multidão ao redor.

Solidão é coisa existencial e, depois, essencial (se é que essência existe). Existencial porque “somos únicos” e ninguém pode viver o que só nós viveremos ou vivemos – ninguém vive em nosso lugar, por isso estamos sempre sós. Essencial porque é regra vir-a-ser quem se é.

Rafael de Campos
elfaracampos@hotmail.com
Rafael de Campos

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