Calado

Calado me escondo, pra não me enfrentar Calado me desvio, para a mentira não deflagrar Calado me solto, para não lidar minhas crises Calado me embriago, pra então ter coragem de falar

Um dia você entenderá

Por que tanta "pré-ocupação"? Por que tanta resistência em simplesmente descansar? Deixar que o silêncio seja eloquente, ouvir o que o barulho esconde, perceber no simples, no agora, no cotidiano, na brisa, nos movimentos sutis da vida que projeta no caminho os grandes sinais, as maiores lições às respostas que precisamos?

E quando Deus faz silêncio?

Deus faz silêncio... Nada acontece... As coisas apenas seguem o curso da mecânica universal. Deus faz silencio... Os homens gritam, a igreja vocifera, os políticos denunciam, a mídia pauta ou constrói histórias, os teólogos deprimem-se, os filósofos sentem saudades de Sócrates e Platão, os pastores prometem bênçãos que as estatísticas cumprirão, os profetas tem seu preço, os piedosos gemem, os jovens sentem o engano, os idosos oram pelo que vão deixar com angustias piores do aquelas que um dia conheceram, e a brisa é feita de vento oriental—aquela que faz o profeta que não se vendeu desejar a morte.

Silencioso Desespero

Mas, infelizmente, devo concordar com Henry David Thoreau quando diz que "a grande maioria dos homens vive uma vida de silencioso desespero". Por baixo do pano escuro da noite, quando as luzes se apagam e restam apenas os labirintos da mente como trilha para o encontro com o descanso, muita gente repousa infeliz. Sua sorte, ou infortúnio, é que durante o dia quase ninguém percebe; disfarçam bem ou convivem com gente igualmente ocupada em disfarçar, que não consegue perceber quão ruins os atores são no palco da vida.