Certa vez, estando numa reunião entre pastores, depois de uma análise sobre como estava a realidade financeira das comunidades, ouvimos o seguinte conselho do líder maior: “Se um irmão não deu dízimo naquele mês, vão na porta da casa dessa pessoa e diga ‘Não vai dar o dízimo, não?'”

Querido leitor, faça uma pausa. Leia as palavras desse conselho duas ou três vezes. Silencie o coração diante disso e faça suas próprias reflexões, depois disso continue a ler o que direi logo abaixo.

O dinheiro é uma necessidade humana em várias instâncias da vida. A não ser que você viva no campo, tendo um poço artesiano, viva bem com luz de lampeão, se alimente do que você planta e faça alguns “escambos” trocando o que você produz na terra por roupas e acessórios que te ajudem a viver bem, ou caso você viva num sociedade tribal, indígena cujo dinheiro seja completamente desnecessário, tirando essas realidades citadas muito provavelmente você precisa de dinheiro! O dinheiro é a representação de um valor que lhe dá poder de consumo e acessos.

Dentro de uma sociedade cujo dinheiro é a principal maneira de pagar dívidas, é óbvio que uma comunidade de fé (que é uma organização de encontro entre pessoas) vai precisar de dinheiro em algum momento. O que aprendemos a respeito da contribuição comunitária em contextos relacionados à fé, no novo testamento: “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria”. A palavra de ordem aqui é: voluntariedade! Voluntariedade significa “dar de livre vontade”. Liberdade da vontade é o oposto da coerção pelo medo e de pressão de qualquer que seja a natureza. Contribuir para alguma causa relacionada à fé é sempre um convite e não uma intimação! O verdadeiro discípulo de Jesus naturalmente desenvolve a generosidade que é concretizada pelas contribuições. Essas contribuições vão desde a dedicação do seu tempo, esforços físicos, compartilhamento de suas ideias e conselhos até a partilha de seus recursos financeiros. Praticamente todas as áreas da vida podem ser “partilhadas” pela generosidade e voluntariedade para com todos. Digo praticamente, pois há algumas dimensões da vida que são restritas e exclusivas, como a dimensão sexual por exemplo.

A pergunta que fica é: como uma comunidade de fé consegue existir sabendo que a contribuição financeira de seus participantes deve ser estritamente voluntária e não impositiva? Essa resposta é mais simples do que imaginamos. Talvez não nos pareça simples por estarmos acostumados à grandes estruturas organizacionais, à necessidade que criamos de agruparmos multidões dentro do mesmo espaço e com isso, parece que o “alto custo” dessas organizações parecem a consequência natural de qualquer tipo de ajuntamento de irmãos cheios de fé. Mas repito: essa reposta é mais simples do que imaginamos!

Em primeiro lugar, quero dizer que é perverso coagir pessoas! É um tipo de sequestro emocional fundamentado em argumentações como essa: “você receberá as bençãos de Deus e será blindado quanto aos ataques do maligno”. Isso não poderia estar tão longe do ensino proposto por Jesus. O conselho que eu ouvi naquela reunião é simplesmente anti-evangelho e a maioria nem percebe! Com a mentalidade que tenho hoje, no mínimo eu teria pedido a palavra pra questionar aquela “ordem” da liderança ou até teria me levantado imediatamente, indo embora daquele lugar pra nunca mais voltar.

Em segundo lugar, eu pergunto: quem colocou em nossa cabeça que precisamos de grandes e custosas estruturas para nos reunir? Temos o espaço das praças, das casas onde moramos, de chácaras de pessoas que conhecemos, de auditórios públicos que podem ser reservados através de requerimento prévio, há tantas e tantas formas de nos reunir?! Podemos nos dividir em grupos pequenos semanalmente e uma vez por mês juntarmos os grupos para uma reunião com todos; podemos até alugar um espaço maior pra reunião, desde que esteja dentro do que as pessoas pretendam contribuir para tal, podendo mudar de formato caso os recursos não sejam suficientes.

O grande problema é que, muitos de nós, estamos pouco flexíveis à mudanças e à explorar alternativas na organização dos nossos grupos de pessoas em torno do evangelho. Nos acostumamos às tradições, nos acomodamos aos nossos ambientes luxuosos e/ou à nossa zona de conforto, tornamos “necessário e fundamental” o que é mero “desejo” e somos capazes de coagir pessoas na direção da contribuição financeira ao invés de nos adaptarmos à realidade das pessoas com as quais lidamos.

A pandemia, por exemplo escancarou a maldade de muitos líderes de grupos cristãos. Eu vi pastores, ao invés de protegerem seus membros de um vírus que lhes poderia ser mortal, incentivando-os a se aglomerarem nos templos contra toda orientação médica do momento, por pura vaidade, dificuldade de se adaptarem à nova realidade e o medo de perderem os recursos necessários para custear sua organização extremamente cara. Ao invés de acolherem os membros, tirando recursos do caixa para ajudar os desempregados e necessitados, colocaram ainda mais peso nos ombros dos membros, “ordenando-lhes” que continuassem contribuindo financeiramente quando estes estavam gemendo por causa da falta do básico em suas casas. A palavra do Senhor veio ao profeta Ezequiel contra esses pastores:

Veio a mim esta palavra do Senhor: “Filho do homem, profetize contra os pastores de Israel; profetize e diga-lhes: ‘Assim diz o Soberano Senhor: Ai dos pastores de Israel que só cuidam de si mesmos! Acaso os pastores não deveriam cuidar do rebanho? Vocês comem a coalhada, vestem-se de lã e abatem os melhores animais, mas não tomam conta do rebanho. Vocês não fortaleceram a fraca nem curaram a doente nem enfaixaram a ferida. Vocês não trouxeram de volta as desviadas nem procuraram as perdidas. Vocês têm dominado sobre elas com dureza e brutalidade. Por isso elas estão dispersas, porque não há pastor algum, e, quando foram dispersas, elas se tornaram comida de todos os animais selvagens. Ezequiel 34:1-5

Rodrigo Campos
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