Era uma noite de quarta-feira, em Álvares Machado SP, dia de culto público. Como sempre fazia, cheguei uma hora mais cedo, abri as portas, coloquei envelope de ofertas em cada um dos bancos, ajustei a gravata, dei uma conferida final no esboço da pregação (que com esmero havia preparado), afinei o violão, ajustei o volume do microfone, selecionei três canções e poucos minutos antes do inicio dobrei meu joelho para pedir a Deus que abençoasse aquela reunião. Não apareceu ninguém! O que faria? Ignoraria os bancos vazios e pregaria para minha esposa? Levantaria uma oração calorosa pedindo a Deus misericórdia pela “falta de compromisso” daquele povo? Sentenciaria o meu ministério ao fracasso depois de uma situação tão humilhante como aquela? No final desse texto revelarei o que aconteceu…

Eu fui ensinado que, o fruto de um ministério pastoral bem sucedido está no número de pessoas que frequentam as reuniões, no número de pessoas que levava para serem batizadas, no tamanho das contribuições de dízimos e ofertas e no quão envolvidas as pessoas estavam com os cargos e funções eclesiásticas. A respeito de todos esses indicadores haviam metas, como nas empresas, tudo em nome do Reino de Deus. Que trajédia! Quão terríveis eram as reuniões entre líderes, me lembro como se fosse hoje, recheadas de cobranças, humilhações e sentimento de culpa. “Método de crescimento da igreja”, “Igreja com Propósito” e muitos outros manuais (do tipo receita de bolo) que criavam sistematizações a respeito do “Reino de Deus” estavam presentes nas orientações para a liderança. Trabalhar cotidianamente para cuidar de pessoas, aconselhar, abraçar a dor alheia pouco eram reconhecidos como trabalho pastoral realizado; as métricas não chegavam até essas atividades, pois não eram mensuráveis; e nem podiam ser.

Basear a avaliação de si mesmo na resposta dada pelas pessoas ao que você é e faz é simplesmente incompatível com o ensino do evangelho. Jesus seria o pior dos pastores, afinal de contas, seu duro discurso levou pra longe boa parte dos que o seguiam e por fim, seus discípulos pouco amadureceram naqueles anos iniciais de convívio com o mestre. Indicadores dessa natureza são ótimo para os vendedores, mas péssimos e incompatíveis pra assuntos espirituais! Jesus não pôde realizar muitos milagres em determinadas cidades por causa da incredulidade deles, e isso não levou Jesus a uma “crise de fé ou crise ministerial”.

Voltando ao dia que não apareceu ninguém na reunião, depois de perceber que o tempo estava passando e nenhum movimento parecia acontecer na direção da porta do templo, decidi desligar o som, apagar as luzes, fechar as portas, pegar o carro e sair com minha esposa. Fomos a uma sorveteria, com muita tristeza no meu coração, e nossa conversa e reflexão diante do ocorrido me convenceu ainda mais que não controlamos as pessoas, não temos nem mesmo a capacidade de julgar se aquilo simbolizava falta de compromisso ou não. Fato era que naquele tempo éramos extremamente narcisistas, queríamos controlar tudo e todos, julgar tudo e todos, especialmente os que não eram “zelosos” como éramos ou pensávamos ser.

O evangelho é um convite, não a uma reunião, nem a um ritual, tampouco a comportamentos vazios, sem consciência, mas a um caminho, a um espírito e, em última análise, ao amor. Esse caminho não é mensurável pela quantidade de reuniões que frequentamos, tampouco número de orações que realizamos ou ofertas que comapartilhamos. Esse caminho é vivo, dinâmico, relacional, que perpassa os momentos de alegria e tristeza da vida, que resiste às crises, que nos conduz no deserto árido e no tempo de bonança. Ministério, segundo o evangelho, é um jeito de servir, é uma forma de amar, cada um tem o seu, segundo a distribuição do Espírito Santo. Juntos utilizamos isso para o bem comum, não precisamos de hierarquias, podemos nos organizar de forma a prevalecer a mutualidade e a boa oportunidade de servir. Como disse Paulo: “façam tudo com ordem e decência”, e conforme Pedro “Se alguém fala, faça-o como quem transmite a palavra de Deus. Se alguém serve, faça-o com a força que Deus provê, de forma que em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o sempre. Amém”.

Alguns dirão: ele é “numerofóbico” (como já disseram), me acusando de ser avesso a avaliações pessoais de qualquer natureza. Eu acredito em certos tipos de avaliações, só não admito essa “industrialização” ministerial sendo assimilada como normativa e divinamente inspirada. Isso é perverso e produz morte! São os fariseus que colocam fardos pesados sobre os ombros dos outros e são os discípulos de Jesus que ajudam o outro a carregar seus próprios fardos. Eu escolhi quem desejo ser no caminho!

Rodrigo Campos
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6 comentários

  1. Que legal esse relato, parte da sua história. Não me lembro de vc ter compartilhado algo sobre esse dia.
    Depois de um longo texto deste pude perceber a maneira como vc faz as observações dos acontecimentos e como o evangelho te dá oportunidade de trazer reflexões boas e cheia de crescimento depois de uma experiência cheia de expectarivas
    frustrada como essa
    O modo como você respeita as pessoas dentro da individuaalidade de cada uma é incrível.
    Aprendo muito com você..

    A religião aprisiona
    Jesus salva ( liberta)

    1. Amém minha amiga! É justamente por isso que decidi abrir essa série de reflexões (em formato de texto), pra recuperar memórias cheias de aprendizado. É bom também falar disso depois que se passaram alguns anos, quando os machucados já viraram cicatriz e não dóem mais. Isso me dá um pouco mais de isenção e imparcialidade. Bjs no seu coração.

  2. Que experiência rica!!
    Agradeço por compartilhar! Algumas vezes me pego sendo severa demais comigo por não ver o “resultado almejado” por mim mesma. Arrogante e presunçosamente acho que por causa do meu esforço as pessoas virão. Que tolice!
    Há coisas que só Deus faz e o crescimento numérico de discípulos é uma delas.
    Gratidão, mano! Aprendo sempre contigo!

    1. é verdade Lia querida! O aumento do número de pessoas pode até ser uma motivação sincera, cheia de piedade, afinal de contas desejamos que o mundo todo conheça as boas novas que proclamamos, mas ao mesmo tempo, pode ser uma armadilha que nos conduz à prepotência e/ou perversidade de industrializar a fé. Aprendamos a ser 2 ou 3; sendo fieis aos 2 ou 3 que Deus nos confiou.

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