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Se juntássemos os personagens bíblicos em um mesmo tempo, na mesma localização, numa conversa rápida perceberíamos a pluralidade de perspectivas em relação à moralidade, visto que em cada tempo e em cada época a moral se manifestava numa determinada direção, mas havia algo em comum (essencial) entre eles: eles convergiam na fé! A fé era a unidade entre eles; essa confiança na Voz (que em cada época se manifestava de uma determinada maneira, respeitando todo o processo evolutivo da história humana) e o que havia de mais parecido entre eles. Hoje, pesar de uma certa unidade no comportamento externo (na moral) o que se vê é uma diferença abismal em relação ao conteúdo da fé. Cada grupo criou um evangelho particular, segundo a sua conveniência e conforto e enxerga os demais grupos com o mesmo espírito competidor do mercado (salvo raras vezes) e sem a consciência prática que os torna irmãos, cooperadores da mesma obra, filhos do mesmo Pai.

Gostaria de reproduzir uma nota de rodapé que vale a pena pensar com minucia:

Dizer que a moral separava os entes bíblicos uns dos outros não quer dizer que não existia entre eles uma “Lei” que percorreu os tempos sem se alterar com as moralidades relacionadas a cada época. Essa Lei foi sendo clareada progressivamente enquanto os homens experimentavam as características próprias de seu tempo. Pense na conclusão de que “Deus é amor”. O amor sempre esteve presente na relação do ser humano com Deus. Foi o amor que fez Deus cobrir Adão e Eva com uma folha de figueira, foi o amor que os expulsou do jardim pra que não eternizassem sua condição comendo da árvore da vida, foi o amor que colocou um sinal na testa de Caim pra que não fosse vingado pelas pessoas de seu tempo, há muito amor no não matar, não cobiçar, não mentir, não adorar outros deuses, não roubar, e em tantos mandamentos que serviram como espinha dorsal de tudo o mais que se construiu culturalmente a partir de então.

Essa mensagem foi se clarificando com o tempo, e nesse processo muito se fez contra o amor! Era um tempo de sombras de revelação até que se manifestou na plenitude dos tempos o VERBO ENCARNADO. Em Jesus tudo ficou claro, o processo de revelação chegou ao seu ápice possível na terra. Em Jesus, a Lei ganha seu real significado, as profecias ganham seu cumprimento, os arquétipos e simbologias recebem sua tradução final. Quem pensava em matar apenas como um ato externo aprendeu que odiar é matar para o lado de dentro. Quem, pela lei, acreditava que se vingar era uma forma de justiça, recebeu de Jesus a notícia de que só Deus sabe fazer justiça, a nós nos cabe evitar o mal, impedir que o mal se multiplique em nós (e por isso, é mais sensato dar a outra face do que revidar). Quem, pela lei, acreditava que “querer a morte dos inimigos” não era digno de repreensão (basta ler os Salmos), em Jesus aprendeu que estes “não sabem de que espírito são”, pois esse não é o Caminho da vida.

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4 comentários

  1. Quando somos confrontados a nos colocarmos no lugar desses, aos quais o mundo não era digno, percebemos como o agir de Deus é tão estranhamente diferente da moral a que estamos acostumados a ver. Interessante vermos como José, pai terreno de Jesus, teve uma vida anônima após a anunciação da gravidez de Maria e nascimento de Jesus, a qual os evangelhos nem sequer comentam absolutamente nada dele, não tendo nem o holofote da história sobre ele, como Maria, e parecendo que viveu de maneira comum entre os seus, mas independente do que achamos da moral, ele viveu de modo que seus contemporâneos não serem dignos de suas atitudes.

  2. Apesar de nós, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, continua sendo Deus imutável em seus desígnios , em sua ética. Mesmo com os incestos, taras, inimizades dos filhos de Jacó, Deus é.! Nao pode ser assim relativizado pelas construções morais , pelas elaborações culturais dos povos e civilizações no decorrer da história.
    O amor faz convergir a lei e os profetas para Jesus, o verbo encarnado, que habitou entre nós cheio de graça e de verdade. Num salto Kyerkegaardiano, há não apenas o instante, encontro entre Deus e nossas imperfeições e subjetividades, mas a não generalização da fé, ou seja , o fato de que só se experimenta o ser em plenitude, quando há uma individuação nossa em Deus , quando mergulhamos profundamente no Deus de toda a graça, existindo nEle e Ele em nós.
    Daí a não conformação, a desarmonia entre contextos culturais dos indivíduos alistados em Hebreus, dos quais o mundo não era digno, mas a sua completa identificação em servir a Deus por nada, vendo em seu rosto a cara do outro, no chão da vida.
    Apesar de nós, ele É; apesar da famigerada teologia dos amigos de Jó, sua exagerada graça nos encontra, todos os dias, como encontrou a Jó, de modo estranhamente delicioso, inexplicável e enigmático…

  3. sem barganhar e sem as angustias de uma vida religiosa dentro de uma pretesa moral tudo se faz novo. dito isso a biblia nao pode ser encarado como im livro moral mas um livro que tipifica o amor de Deus pelo homem e toda colecao de ideais humanos.

  4. Impressionante como essa citação do Caio é uma realidade hoje: “nos parecemos uns com os outros (hoje) pela moral, (porém) somos dramaticamente diferentes quanto à fé!”.

    E o mais absurdo disso tudo é que cada grupo tem a convicção (e muitas vezes a arrogância de afirmar) de que sua forma de pensar é a (única) forma certa.

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