A Vida de João. A vida do apóstolo divide-se em dois períodos. O primeiro conclui com a sua partida de Jerusalém algum tempo depois da ascensão de Cristo, e o segundo prossegue desde então até a sua morte. João era evidentemente muito mais jovem do que Jesus. Ele deve ter nascido em Betsaida (Jo. 1:44).  Filho de Zebedeu e Salomé, vinha, ao que parece, de uma família abastada; pois trilha servos (Mc. 1:20), sua mãe ajudou no sustento financeiro de Cristo (Mc. 15:40,41), e João conhecia o sumo-sacerdote, que era escolhido entre a elite (Jo. 18:15). Seu irmão mais moço era Tiago. Embora João não tenha provavelmente freqüentado as escolas rabínicas (Atos 4:13), sua educação religiosa em seu lar judeu deve ter sido completa.

Os galileus eram homens de ação, duros e trabalhadores, e João não era uma exceção. Embora os artistas o tenham pintado como pessoa efeminada, a Bíblia o descreve de maneira muito diferente. Era conhecido como um dos “filhos do trovão” (Mc. 3:17), que em diversas ocasiões agira com intolerância (Mc. 9:38; Lc. 9:49), caráter vingativo (Lc. 9:54), e espírito de intrigas (Mt. 20:20, 21; cons. Mc. 10:35). Foi o poder de Cristo que transformou este galileu típico em “o apóstolo do amor”.

Quanto tempo João ficou em Jerusalém depois do Pentecostes não é certo. Evidentemente não estava lá quando Paulo visitou a cidade pela primeira vez (Gl. 1:18,19), embora possa ter estado mais tarde como um dos membros do concílio (Atos 15:6). A evidência de que passou a última parte de sua vida na Ásia Menor; e principalmente em Éfeso, é forte demais para ser abalada Com Outras conjeturas. Justino Mártir (Dialogue with Trypho, LXXXI), Irineu (Eusébio, Ecclesiastical History V, xx. 4,5), Polícrates (Ibid. V. xxiv. 3), e a forte inferência de que O Apocalipse foi escrito por um líder eclesiástico na Ásia Menor, todos atestam este fato. Literatura extrabíblica está repleta de histórias das atividades de João durante este período, sendo a mais famosa sobre Cerinto no banho e um jovem rapaz (um dos convertidos do apóstolo) que se tornou um bandido e boi mais tarde reconciliado com a igreja (cons. A. Plummer, The Gospel According to S. John, Cambridge Greek Testament, pág. xvii, xviii).

João é mais conhecido como “o apóstolo do amor”, mas ele foi também um homem severo que até os seus últimos anos de vida foi intolerante com a heresia. Ambos estes aspectos do seu caráter, a severidade e o amor, estão destacadamente exibidos em sua Primeira Epístola. Intenso é a simples palavra que melhor descreve este homem. Nos atos, no amor aos irmãos, na condenação da heresia, João foi um apóstolo intenso.

A Cidade de Éfeso. Éfeso, o lar de João durante a última parte de sua vida, está localizada em uma planície fértil peno da desembocadura do Rio Caister. No tempo de Paulo era uru centro comercial, da região oriental do Egeu e daqueles que passavam por Éfeso vindos do Oriente. Sendo a cidade a capital da província da Ásia Menor, o procônsul romano residia ali. Assembléias democráticas eram permitidas aos habitantes de Éfeso (Atos 19:39). O Cristianismo entrou na cidade em cerca de 55 através do ministério de Paulo, e ele escreveu uma carta circular a Éfeso e outras igrejas cerca de oito anos mais tarde. Antes de João chegar à cidade, muitos trabalharam ali pela causa de Cristo (Áqüila e Priscila, Atos 18:19; Paulo, Atos 19:3-10; Trófimo, Atos 21:29; a família de Onesíforo, II Tm. 1:16-18; 4:19; e Timóteo, I Tm. 1:3).

A moralidade em Éfeso era baixa. O magnificente templo de Diana, com suas 127 colunas de 19,80ms. de altura à volta de uma área de 140 por 72ms., era como um ímã que atraía o povo à pocilga de Éfeso. Era uma casa de prostituição em nome da religião. E apesar da idolatria iníqua que havia nesse lugar, era a Meca ou a Roma dos religiosos, e o seu povo deliciava-se em intitular-se de “guardadores do templo” da grande Diana (Atos 19:35).

Gnosticismo. O Gnosticismo, a filosofia da essência, em sua forma primitiva fez incursões na igreja da Ásia Menor nos dias de João. Ele envolvia especulações relativas à origem da matéria e sobre como os seres humanos podem ficar livres da matéria. O nome é grego, mas seus elementos principais eram gregos e orientais; aspectos judeus e cristãos foram acrescentados à mistura. O Gnosticismo defendia, particularmente, que o conhecimento é superior à virtude, que o verdadeiro significado das Escrituras está no sentido não literal e que só podem ser compreendidas por alguns poucos seletos, que o mal no mundo impossibilita que Deus seja o criador, que a Encarnação é coisa incrível porque a divindade não pode se ligar a nada que seja material – tal como o corpo, e que não existe a ressurreição da carne. Esta doutrina resultou no Docetismo, ascetismo e antinominianismo. O Docetismo extremo defendia que Jesus não era humano sob qualquer aspecto, mas uma teofania meramente estendida, enquanto o Docetismo moderado considerava Jesus o filho natural de José e Maria, sobre o qual Cristo veio no momento do batismo. Ambas as formas da heresia foram atacadas por João na Primeira Epístola (2:22; 4:2, 3; 5:5, 6). Alguns gnósticos praticavam o ascetismo porque criam que toda a matéria era má. O antinominianismo, ou a anarquia religiosa, era a conduta dos outros, uma vez que consideravam o conhecimento superior à virtude (cons. 1:8; 4:20). A principal resposta de João a estes erros gnósticos foi enfatizar a Encarnação e o poder ético do exemplo da vida de Cristo.

A Autoria das Epístolas. A questão levantada quanto à autoria de Primeira João é se o João que escreveu o Evangelho e a Epístola foi realmente João, o filho de Zebedeu, ou João, o ancião. A literatura menciona um presbítero João em Éfeso, e alguns têm sido levados a concluir que João, o filho de Zebedeu, foi uma outra pessoa, e não o João de Éfeso, e que foi este último que escreveu estes livros (Irineu em Eusébio, op. cit., V. viu e xx; Papias em Ibid., III, xxxix; Polícrates em Ibid., V. xxiv; O Cânon de Muratori).

O argumento padrão para a autoria joanina do Evangelho baseia-se em evidências internas. Este argumento se encontra na natureza de três círculos concêntricos. l) O círculo maior prova que o autor era um judeu da Palestina. Isto está comprovado pelo uso que faz do Velho Testamento (cons. 6:45; 13:18; 19:37), e por seu conhecimento do pensamento judeu, tradições, expectativas (cons. Jo. 1:19-49; 2:6, 13; 3:25; 4:25; 5:1; 6:14, 15; 7:26 e segs.; 10:22; 11:55; 12:13; 13:1; 18:28; 19:31, 42), e por seu conhecimento da Palestina (Jo. 1:44, 46; 2:1; 4:47; 5:2; 9:7; 10:23; 11:54). 2) O círculo médio prova que o autor foi testemunha ocular. Isto está comprovado pela exatidão dos detalhes de tempo, espaço e incidentes dados no Evangelho (cons. Jo. 1:29, 35, 43; 2:6; 4:40, 43; 5:5; 12:1 , 6, 12; 13:26; 19:14, 20, 23, 34, 39; 20:7; 21:6), e pelo esboço dos caracteres (por exemplo, André, Filipe, Tomé, Natanael, a mulher de Samaria, Nicodemos) peculiaridade deste Evangelho. 3) O terceiro círculo conclui que o autor foi João. O método seguido é, em primeiro lugar, eliminar todos os outros que pertençam ao círculo íntimo dos discípulos e então citar evidências confirmantes que provam que só João poderia ter sido o autor.

Os argumentos para a autoria comum do Evangelho e da Epístola são conclusivos. Esta evidência firma-se sobre passagens paralelas (por exemplo, Jo. 1:1 e I Jo. 1:1), frases comuns (por exemplo, “filho unigênito”, “nascido de Deus”), construções comuns (o uso de conjunções em lugar de cláusulas subordinadas) e temas comuns (ágape, “amor”; phos, “luz”; zoe, “vida”; meno, “habitar”). Assim permanece a questão básica: O autor de ambas as obras foi João, o apóstolo, ou João, o presbítero?

Alguns dos motivos para se fazer uma distinção entre João, o apóstolo e João, o presbítero, favorecendo assim a autoria destes livros pelo último, são: 1) um homem inculto (Atos 4:13) não poderia ter escrito nada tão profundo quanto o Quarto Evangelho; 2) o filho de um pescador certamente não poderia conhecer o sumo sacerdote; 3)um apóstolo não se intitularia presbítero; 4) uma vez que o escritor do Evangelho usou Marcos como fonte, esse escritor não poderia ter sido João, uma vez que um apóstolo não usaria a obra de alguém que não fosse apóstolo. Contra estes argumentos, as respostas que defendem a autoria de João, o apóstolo, não são difíceis de se dar. 1) Iletrado pode ser aquele que não teve uma educação formal nas escolas dos rabinos e nem sempre significa “ignorante”; 2) não se deve julgar que todos os pescadores fossem de origem inferior; 3) o apóstolo Pedro também se intitulou ancião (I Pe. 5:1), então por que não poderia João usar o mesmo título? 4) Mateus, um apóstolo, usou Marcos como fonte, de acordo com os críticos, mas isto não se usa geralmente como argumento contra a autoria de Mateus no Primeiro Evangelho. Além disso, se João, o presbítero, é o autor do Quarto Evangelho e o mesmo discípulo amado, toma-se muito difícil explicar por que uma pessoa tão importante quanto João, filho de Zebedeu, nunca foi mencionado nesse Evangelho. As evidências apontam claramente para o escritor do Evangelho e das Epístolas, João, o apóstolo, filho de Zebedeu, que é o mesmo João presbítero que passou os últimos anos de sua vida em Éfeso.

Datas e Lugar. As datas das epístolas relacionam-se com a data indicada para o Evangelho. Aqueles que indicam uma data entre os anos 110 e 165 para o Evangelho e acham que João não foi o autor, deparamse com um dilema. Se o Evangelho foi publicado tão tarde assim, alegadamente mas não realmente escrito por João, por que as centenas de cristãos vivos, que conheceram João durante seus últimos anos de vida, não denunciaram a fraude? Ou, pelo menos, por que alguém não mencionou que não foi escrita pelo próprio? Se ele não foi publicado antes de 140/165 como poderia ser universalmente aceito em 170, como foi? O fato dos fragmentos de Rylands, referente a João, encontrados no Egito datarem de 140 ou antes, requer que a data da composição do livro seja colocada no fim do primeiro século ou antes. O Evangelho evidencia que o autor está voltando seus olhos para trás (Jo. 7:39; 21:19), o que significa que, sendo João o autor, o Evangelho deve ter sido publicado entre 85 e 90 (embora tenha sido escrito antes). Sem dúvida foi produzido por insistência dos anciãos dás igrejas da Ásia Menor, que queriam que ele anotasse, antes de morrer, as coisas que lhes ensinara oralmente. Uma vez que a mensagem de I João parece indicar um conhecimento do conteúdo do Evangelho, e uma vez que não há nenhuma menção de perseguição sob Domiciano em 95, a Primeira Epístola foi provavelmente escrita em cerca de 90 A.D. Segunda e Terceira João também podem ser datadas do mesmo ano da Primeira Epístola, isto é, cerca de 90. Todas as Epístolas foram escritas de Éfeso, de acordo com a tradição digna de confiança.

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