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Morra para quem te matou

O relógio marcou duas horas de discussão, mas o romance, que tem a sua própria interpretação do tempo, indicou que o afogamento durou três anos. Ana matou Renato lentamente, porque essa é a forma preferida do amor morrer.

Como quem luta para alcançar a superfície e tomar fôlego, Renato argumentou, pedindo à Ana que não fosse embora. A atenção dela, contudo, já estava do lado de fora. Em meio à luta pela sobrevivência, ele não percebeu que o coração dela já havia partido, agora Ana só estava levando o resto de seu corpo junto.

Depois de tantas braçadas que não o levaram a lugar nenhum, Renato entendeu que já estava morto. Ana o havia matado há tempos dentro de si mesma, era ele quem insistia em viver nela.

Os sinais de sua morte estavam claros. Ana já não enrolava mais as pernas em Renato antes de dormirem, nem colocava duas xícaras na mesa do café da manhã. Renato os ignorava, talvez porque acreditasse que os salva-vidas viriam em seu socorro – mas ninguém pode obrigar um amor a viver. Certas vidas não podem ser salvas.

Renato errou em não morrer para quem o havia dado como morto. Ao implorar pela vida dentro de Ana, ele também se matava aos poucos, porque ninguém pode viver por muito tempo se alimentando de migalhas.

O amor próprio é o único caminho para morrer em paz. Quem não se ama vira um defunto mendicante, convencido de que é a esmola do outro que confere valor à sua vida.

Lucas Lujan
vilabadulaques.blogspot.com.br
https://www.facebook.com/lucasmeirelleslujan
lucas lujan

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