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O silêncio do luto

O coro de vozes parecia se amontoar ao meu redor. Era como o som de muitas aguas. Os burburinhos eram vários e distintos, então eu só ouvia os ruídos que emanavam das outras salas fúnebres e dos corredores. Porém tudo isso foi paradoxal. Parecia que fora subjugado pelo trombetar do silêncio, causado pelo choque que tive. Estava à minha frente o corpo do meu avô e nada mais importava. Nenhum ruído no mundo perturbava a minha dor e eu não poderia despertar.

Eu estava anestesiado pela ferida da ausência, dopado pela sensação do abandono, rodeado pela incerteza do futuro. Ali as vozes do mundo cessaram, as cores minguaram até chegar no tom cinza da morte. Agora a perfuração do silêncio me dilacerava. As forças para gemer já não existiam mais e eu muito menos. A única saída era o pranto!

O silêncio me absorveu ainda mais no enterro! A minha consciência absorvida por aquela cena horrível. Diferente dos cemitérios de hollywood, com lápides bonitas e uma grama tão verde que faz doer os olhos, os da vida real são muitas vezes destroços da existência. A cada centímetro que o caixão entrava no túmulo, minha alegria de viver era soterrada. Quando o coveiro fechou a cripta eu fiquei ali junto do caixão, no breu do sofrimento. A vida não foi mais a mesma.

Eu só vagava por aí, feito um morto-vivo querendo que ele voltasse. A minha alma desejava que tudo aquilo fosse um sonho, um pesadelo do qual eu despertaria já, já. Mas não era! A ausência cavava buracos mais fundos no meu coração, a cada segundo.

Sei que não voltaria mais, até porque mortos não retornam, mas, e daí? Sei que é impossível, mas a dor que eu sentia também era, aquele vazio, então… parecia que um buraco negro iria me sugar para dentro de mim mesmo. Eu queria ficar ali, adormecido, mais entorpecido do que qualquer tipo de porre alcoólico. Naquele momento tive a sensação que a dor é o paliativo que te adormece para a vida.

Mas mesmo adormecido, reparei que a vida não dorme junto. Eu estava feito morto-vivo, mas vida estava me vivendo. Aos poucos, dia-a-dia, tijolo por tijolo, eu era renascido pelo viver da vida. A dor da morte, gradativamente, foi trocada pelo conforto das boas lembranças!

Os buracos que foram feitos pela ausência serviram para plantar flores de novas cores, as quais eu não conhecia, e, logo a existência retornou e a aquarela junto com ela. As vozes voltaram também! Dessa vez eu as entedia com perfeição. Eram as vozes das outras pessoas que eu amava, e elas me falavam bons sentimentos, e sempre estiveram ali, me encorajando a viver quando a morte havia me silenciado. Agora eu respirava outra vez e a minha voz deveria ressuscitar outros calados pelo luto.

Matheus Gomes
Jornalista
E-mail: matheusfgomes95@gmail.com
Instagram e Twitter: @gomesmatheusf
Facebook: https://www.facebook.com/matheus.batera.94
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Matheus Gomes

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