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Não morrerás!

Eu tenho o hábito de olhar, quase sempre, na direção contrária. E ao fazer isso, diante da tragédia de Suzano, a pergunta que me vem à cabeça não é: “Por que eles fizeram isso?”, mas sim: “Por que eles não fariam isso?”. Ora, logo na partida, circunscrever a questão no âmbito da discussão bipolarizada da política nacional é não só oportunismo barato, como reducionismo intelectual, pois, com ou sem liberação do porte de armas, a desgraça aconteceria, quem quer matar, da forma como os garotos mataram, que por si só já revela uma psicopatia, faz isso até com uma caneta BIC.

Daí a minha angustia para não me alienar, ou pior ainda, cair na tentação de fornecer respostas simplistas, que me deem um certo “alívio”, me eximam da culpa, pois quando resumo a questão a temática: “Por que eles fizeram isso?”, nada mais sobra para mim, nenhuma reflexão me cabe. Como um “Homem do Evangelho”, seria mais cômodo enquadrar a tragédia no âmbito do Decálogo de Moisés. Sim, diz a Escritura: “Não Matarás!”. Portanto, caso encerrado. Contudo, olhando o contexto do País no qual eu vivo, não tenho coragem de ser tão cínico, por isso, minha questão não pode ser outra, senão: “Por que eles não fariam isso?”.

De certo, diante de tanto ódio, de amizades desfeitas, de injúrias familiares, tudo por conta de um tipo de política-vadia e de políticos-prostitutos, por que eles não fariam isso? Vivendo num país sem empregos, com pouquíssima esperança para quem nasce em bolsões de pobreza, onde negros e pobres são dizimados por uma polícia mal-paga, por que eles não fariam isso? Num tempo onde traficar é muito melhor do que estudar, onde a prática do Estado é manter a ignorância como projeto de poder, pois a educação é artigo de luxo apenas para ricos, por que eles não fariam isso?

Olhando todo o estrago que fizemos na família, com relações descartáveis, tendo a separação se tornado coisa banal, a criação de filhos sendo terceirizada para as babás, ou entregue a TV, ou ainda o fato de que nossas casas se esvaziaram de valores e princípios, pois para sobreviver “vale tudo”, por que eles não fariam isso? Numa geração que se esqueceu de Deus, que desprezou os ensino de Cristo, que fez do epicurismo grego seu modelo de felicidade, num tempo onde a futilidade é regra e o consumismo mandamento, onde o verdadeiro deus é a tecnologia, que tudo sabe, tudo vê e tudo resolve, por que eles não fariam isso?

Com dor na alma, tristeza no coração, respeito pelo sofrimento dos que estão enlutados e reverência pelos mortos, só me resta pedir perdão por não ser capaz de dizer a toda essa gente “Não Morrerás!”, fazendo o possível e o impossível para que isso se torne realidade. Sim, “Não Morrerás” vitimado pelo meu descaso, “Não Morrerás” sentenciado por um Estado perverso, “Não Morrerás” por seres um aborto vivo numa família morta e “Não Morrerás” abandonado por um tipo de fé que só produz a sentença, sem jamais oferecer a misericórdia…

Carlos Moreira
https://www.facebook.com/CarlosFSMoreira
Carlos Moreira

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