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Cap. 5 – Pastorear Pessoas – “Minha Fé se Discute”

Esse é mais um daqueles assuntos difíceis de se tratar no universo religioso, especialmente quando se constata um incontável número de pessoas chamadas de pastores que entendem o pastorado como: estar a frente de uma igreja, pregar toda semana, realizar ceias e batismos e demais cerimonias/rituais daquela tradição religiosa, atender algumas pessoas no gabinete pastoral e nada mais.

É justamente pensando dessa forma que, com toda boa vontade do mundo, muitos se dedicam profundamente a se prepararem para as reuniões públicas, exigindo de si e dos outros o máximo de empenho nesse papel, pois é nesse contexto que haverá o cuidado pastoral pelo qual muitos deles são sustentados integralmente pela comunidade.

Ao que pese que a reunião pública tem o seu valor, e que é uma ótima oportunidade para causar reflexão, questionamentos e chamar as pessoas a pensarem sob novas perspectivas (que decididamente é “uma” forma de pastoreamento), é absolutamente essencial entender essa nobre função para além desse papel público e concentrado em reuniões gerais.

Jesus, o Sumo Pastor, demonstrou o pastorado cuidando das pessoas enquanto andava com elas, enquanto se movimentava com elas, no caminho. Isso significa que a relação entre “pastores e ovelhas” deve ser muito mais uma amizade fraterna que acompanha e enfrenta os mesmos obstáculos do que um “palestrante ungido” que oferece uma mensagem genérica e impessoal no domingo à noite.

Inevitavelmente, ao falar disso, precisamos falar sobre o fato de que a Igreja de Jesus tem muitos pastores entre seus membros. Isso é pouco enfatizado hoje em dia. Admitem-se muitos diáconos, muitos evangelistas, muitos missionários, muitos de muitas outras funções, porém, em geral o pastoral é quase que centralizado na figura de uma ou no máximo duas pessoas dentro da comunidade. A ênfase é quase sempre em quem tem o microfone na mão e a oportunidade de falar publicamente a todos. Não será relevante o fato de Jesus ter escolhido apenas 12 discípulos para o acompanhar de perto pastoreando verdadeiramente?

Talvez esse seja um indício de que não somos capazes de cuidar/pastorear multidões, por mais que tenhamos ânimo, disposição e boa vontade. Por isso a descentralização pastoral é um tema extremamente relevante nos dias atuais.

Pastor, para muitos, é aquele que fez o curso de Teologia, que se veste com terno e gravata, que sabe utilizar o microfone para falar publicamente (tem boa retórica), mas não é também incluso, os pastores que nunca falaram na reunião pública, mas que estão sempre presentes para orientar, refletir, ajudar, consolar os irmãos nos momentos de maior calamidade em suas vidas. São aqueles que cuidam da alma das ovelhas, que saem do trabalho suados e visitam pelo simples privilégio de participar da vida deles.

O jargão “pastor tem cheiro de ovelha” é realmente verdadeiro. Atender pessoas apenas no gabinete, com hora marcada não realiza todo o trabalho da experiência pastoral. Pastor anda junto, se mistura, faz contatos, se disponibiliza, põe a mão na massa, não trata as relações de forma empresarial, distante, com ares de superioridade. Pastor que é pastor trata das feridas, se faz um igual, suja as mãos e os pés convivendo com os mais vulneráveis, entra nas casas sem procurar por privilégios, se faz presente nos lugares mais obscuros da terra (como no tanque de Betesda, por exemplo).

Cuidar de pessoas nunca deveria ser uma troca, pra que o outro frequente a reunião, traga seus dízimos e se afilie à instituição da qual fazemos parte. De graça recebemos, de graça devemos dar, disse Jesus. Pastorear é uma vocação, não é um negócio. Cuidar de pessoas é como “ser um mendigo que encontrou pão e quer repartir com o outro mendigo”. Pastorear é incluir o problema do outro em sua própria disposição mental de fazer parte da solução do mesmo.

Esse executivo superestimado, cheio de regalias, que anda no tapete vermelho de Hollywood, que é pesado aos irmãos mais pobres, que sempre demanda atenção dos outros, serviço dos outros, que respira e inspira ameaças espirituais, culpas, exigências, cargas, que anda com a pompa de um ungido de Deus, como se fosse a figura mais importante do universo e que jamais entraria na cidade montado num jumentinho, pois se acostumou ao conforto dos melhores carros, das melhores comidas e portanto, se desconectou completamente da simplicidade encontrada em Jesus, não é um pastor, é apenas um homem surtado pelo pseudo poder espiritual que lhe ofertaram.

É extremamente confortável liderar pessoas em momentos em que elas fingem estar tudo bem, se vestem com as melhores roupas, repetem refrãos que não condizem com a real situação do seu coração e que se uniformizam psicologicamente para atenderem as demandas do grupo. Pastorear é lidar com o povo do jeito que ele é, errante, vacilante, ambíguo, cheio de fraquezas e se enxergar como integrante dessa humanidade lutando junto com o outro pelo melhor que se pode ser em Cristo Jesus.

Reconhecer outros pastores da comunidade não é uma tarefa fácil pra quem está acostumado a ter toda a atenção e receber todo o sustento financeiro da comunidade. Sair do centro significa dividir o “osso”, se relativizar em alguma medida, reconhecer a importância de outras pessoas, e o melhor, conscientizar a todos que não se é insubstituível nem visceralmente imprescindível. Isso requer muita humildade e muita coragem.

O desafio dessa atitude é maior ainda quando se constata que a própria comunidade gosta dessa centralização, dessa transferência psicológica de responsabilidade, desse referenciamento máximo da figura de Jesus. É muito mais fácil dizer “este é o meu pastor”, se referindo ao que tem boas mensagens, boas roupas, boa condição de vida e se tornou “um modelo de sucesso”, do que dizer aquele rapaz simples, de chinelo, que não fala ao público, que é gente como eu é uma das várias pessoas que me ajudam a caminhar.

Há um certo fetiche com a figura pastoral. É como se o pastor fosse o eu idealizado, aquele que já chegou lá, que já venceu todos os desafios que ainda me derrotam, que recebeu toda inspiração espiritual que ainda me é negada, que está longe de mim, que tem poderes espirituais que a mim ainda estão vetados, visto que sou muito pecador pra receber tais bênçãos, mas o pastor não, este já está em outro nível.

E você acha que essa imagem falsa é apenas fomentada pela imaginação fértil das “pessoas comuns” da comunidade? De jeito nenhum. Ela é, quase que dominicalmente, estimulada nas entrelinhas das pregações (quando não o é escrachadamente), nos anúncios pastorais, no direcionamento comunitário, quase que sempre, decidido unilateralmente pela figura pastoral, sem oportunidade de ouvir vozes distintas e discordantes justamente por trazer consigo o significado de quem já ouviu Deus lhe falar ao coração e portanto, sobra ao povo apenas a “oportunidade e o privilégio” de dizer amém e amém.

Parece que não está muito clara a ideia contida no livro de Hebreus que o Sumo Pastor é Jesus, e que, portanto, todos os pastores humanos são nada mais, nada menos que ovelhas ajudando outras ovelhas a se unirem na direção do Sumo Pastor, e que por vezes, o trabalho pastoral se reveza, tal como aconteceu com Pedro (a quem Jesus disse: “apascenta as minhas ovelhas”) que embora pastor, precisou ser pastoreado/guiado por Paulo em momentos de vacilação.

Pastores de verdade são os que mais servem, não são os que mais são servidos. Pastores de verdade são amigos de jornada que enxergam os outros como superiores, não são pessoas que se sentem integrantes de cadeiras cativas e exclusivas de privilegiados conselheiros de Deus.

Pastores sofrem e falam de seu sofrimento, por serem humanos. Pastores erram e reconhecem o seu erro, pois são humanos. Pastores exercem algum tipo de influência/autoridade de forma natural, não por imposição ou por poder socio-religioso. Nossos amigos/pastores de jornada são aqueles com os quais a gente pode contar as coisas mais íntimas sem nos sentirmos julgados, avaliados e classificados. É gente que anda com a gente, nos melhores e nos piores momentos da vida, atendendo ou não as expectativas da sociedade.


Essa versão é apenas uma prévia, ou seja, não coincide com a integralidade do que será publicado no Livro. Justamente por isso, além do grupo de curadores do livro (pessoas que estão me ajudando a, melhor expressar as ideias contidas nele), gostaria de suas opiniões e contribuições também nos comentários desse post, pelo qual agradeço imensamente!

Se você quiser ajudar financeiramente na publicação desse livro acesse: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/livro-minha-fe-se-discute

Se você quiser saber mais sobre a publicação desse livro clique aqui

Obrigado

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Rodrigo Campos
Um Caminhante Aprendiz

 

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2 comentários em “Cap. 5 – Pastorear Pessoas – “Minha Fé se Discute” Deixe um comentário

  1. Concordo com tudo o que vc disse, mas quero fazer uma ressalva, pois ao pastor é incumbida a responsabilidade de liderar e cuidar do rebanho, como alguém que prestarás contas a Deus por isso.”Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.”

    Hebreus 13:17

    Curtido por 2 pessoas

    • É verdade Jorge. Essa autoridade referente aos líderes do povo não são exclusivas ao que possuem o dom do pastorado, isso inclui os mestres (de quem terão maior rigor no Juízo) e todo aquele que exerce influência sobre outros. Ai dos que fazem os pequeninos tropeçarem. Ao mesmo tempo, Jesus orientou cada discípulo tomar cuidado com falsos profetas e falsos religiosos que tornam outros 10 vezes mais filhos do inferno do que eles. Então, essa obediência citada em Hebreus não é cega, nem mesmo sem critérios. Ela é consciente e dedicada aos que de fato são homens e mulheres dignos de confiança.

      Curtido por 1 pessoa

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