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Cap. 4 – Qual é o seu dogma? – “Minha Fé se Discute”

Em qualquer dicionário você encontrará a explicação da palavra dogma da seguinte forma: “parte fundamental de uma doutrina religiosa, tida como indiscutível”. Onde quer que haja um dogma estabelecido, sabemos que com ele não se brinca, não há a mínima possibilidade de relativização, ele é a verdade absoluta daquele grupo específico.

Tudo o que não pode ser levado em “discussão” pode ser chamado de dogma. É possível discutir a constatação da lei da gravidade? Não. Então ela é um dos dogmas da ciência. É possível discutir a existência ou não de Jesus para os cristãos? Não. Então a pessoa de Jesus é um dogma dos cristãos.

Use essa definição de dogma para aumentar a lista de perguntas sobre as doutrinas do grupo cristão a que você pertence e aos demais grupos existentes, e então você encontrará os seus dogmas. Vou me atrever a fazer algumas perguntas:

 

  • É possível ser salvo por Jesus sem passar pelo batismo nas águas?
  • Há relação com Deus se não estivermos associados a alguma instituição cristã?
  • Existem realidades santas fora dos limites da religião cristã?
  • Deus fala apenas por meio das palavras registradas na Bíblia?
  • O momento de ofertório a Deus está restrito ao período dentro da reunião pública onde depositamos uma doação na cestinha?
  • Ser padre/pastor significa fazer o curso de teologia e estar a frente de uma comunidade?
  • Evangelizar é trazer pessoas para se associarem ao grupo religioso a que pertenço?
  • Todos os que não se encaixam nas minhas ideias sobre espiritualidade irão para o inferno?

Por ora, essas perguntas bastam. Gostaria agora de visitar cada uma delas, de forma específica para percebermos o quanto podemos estar perdendo, por nos privar da discussão da nossa fé e dos nossos dogmas.

 

BATISMO

 

A maioria dos grupos cristãos de nosso tempo utiliza-se do batismo nas águas como um ato de confirmação da fé que o indivíduo passou a ter em Jesus ou mesmo como consagração que os pais fazem dos filhos a Deus (no caso do batismo infantil). Boa parte desses grupos, consideram profanos ou, em outras palavras, não salvos, as pessoas que não foram batizadas nas águas, quando ignoram completamente o que Jesus disse ao não batizado ladrão arrependido da cruz: “Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso”.

Se por um lado temos Jesus dizendo “…e pregando as boas notícias a toda a criatura, batizem-nas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…”, temos também uma pessoa que foi salva sem passar pela experiência do batismo nas águas. Isso nos leva, indubitavelmente a não tratar o batismo nas águas como um rito que confere poder de salvação. Um símbolo externo não realiza a transformação interna. Isso explica o fato de muitas pessoas terem passado pela experiência do batismo nas águas e jamais terem, de fato e de verdade, se tornado discípulos de Jesus.

Sabe qual era o “batismo” dos judeus? A circuncisão. E sabe o que o Apóstolo Paulo diz aos Coríntios sobre ela? “A circuncisão nada significa… o que importa é obedecer aos mandamentos de Deus”. Em outras palavras, não é uma marca no corpo, um rito, uma veste, uma comida, um ato exterior que atrairá a aprovação de Deus sobre o indivíduo, mas sim a sua inclinação essencial ao que Deus diz!

“Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”, disse Jesus, mostrando que não se batizar não condena o homem ao inferno, mas sim sua falta de confiança no Deus que é amor. Dessa forma, faz todo o sentido Jesus salvar o ladrão da cruz não batizado nas águas.

Diante de todas essas coisas, será que deveríamos tratar dessa questão como um dogma? Infelizmente, uma quantidade enorme de pessoas o trata assim. E não somente isso, se dividem entre batismo por imersão e batismo por aspersão, gastam tempos e tempos discutindo se crianças podem ou não serem batizadas, e isso acontece porque sentem a necessidade de realmente saber quem são os condenados e quem são os santos deste mundo (segundo a régua do batismo).

 

ASSOCIAÇÃO À INSTITUIÇÃO CRISTÃ

 

Ter o próprio nome no rol de membros de uma instituição cristã é condição “sine qua non” para a salvação, segundo alguns. Esse é um dos dogmas mais difundidos hoje em dia. Não é possível ser brasa fora do braseiro, afirmam (considerando braseiro as instituições cristãs, e nada mais). Essa é a primeira pergunta que nos fazem quando querem saber sobre nossa espiritualidade: De que igreja você é? Responder a essa pergunta dizendo “não estou vinculado a nenhuma instituição religiosa” é quase que o mesmo que dizer “sou um desviado, estou longe de Deus, preciso me arrepender e voltar ao rumo certo”.

Pra Jesus, igreja é um ajuntamento de pessoas em que dois ou três estão reunidos em torno do Nome Dele, mas para a maioria de nós, a prefeitura que concede o CNPJ da instituição religiosa é a validadora da “Igreja eterna de Deus”. Sem abrir firma e ter o reconhecimento legal não há ajuntamento que agrade a Deus, muitos creem.

Essa ideia é insana por si só, especialmente quando voltamos ao primeiro século e acompanhamos a forma como Jesus se associava às pessoas e a liberdade imensa que havia entre os primeiros discípulos registrado em Atos dos Apóstolos que se reuniam em cavernas, nas casas, nas praças públicas, à beira da praia e onde lhes era mais conveniente.

Posso me associar a uma instituição cristã? Claro! Isso é uma condição para que Deus me aceite como seu filho? Claro que não! Instituições religiosas são criações nossas, pra tentarmos atender a determinadas demandas de agrupamentos, mas pra saber se realmente estão caminhando na direção de Jesus é preciso muita observação e cuidado. Não é porque se reúnem para ler a Bíblia, que necessariamente é um ambiente saudável e agradável a Deus nos seus objetivos.

Muita atrocidade já foi feita em nome de Deus, muitos já foram escravizados psicologicamente e mortos literalmente por causa do fanatismo religioso de muitos grupos denominados cristãos. A inquisição, as cruzadas e diversas manifestações de ódio (em nome de Deus) fizeram e ainda fazem suas vítimas até hoje. Grupos que relativizam o ensino de Jesus para ganhar adeptos, dinheiro, poder e fama estão espalhados pra todo canto, tudo sob a aparência de santidade e busca pela divindade.

Portanto, a associação que Deus está interessado que você e eu façamos é ao amor! Tanto ao amor com que Ele nos amou, quanto ao próximo que precisa ser alvo desse amor que vamos oferecer gratuitamente e sem alardes! No mais, todas as demais associações são relativas.

Amo estar reunido com irmãos de caminhada, tanto virtualmente pelas redes sociais, quanto pessoalmente, na padaria, em casa ou na esquina da rua. O que mais importa, no final das contas, é a profundidade desse amor entre as pessoas e do compromisso pessoal na direção do que Jesus ensinou como sendo “o caminho”.

Quando não enxergamos mais os “limites comunitários” provenientes do local, do nome ou da tradição religiosa, muita gente de muitos lugares passa a fazer parte da “nossa comunidade”. Isso, porque a gente se interessa por elas, as apoia, pede ajuda e nisso há um ambiente de fortalecimento mútuo que não está restrito a dia, local e horário pré-determinados. É exatamente o tipo de relação que havia entre Jesus e seus discípulos, e dos discípulos com outros discípulos. O que os movia juntos era o mesmo objetivo: ensinar o que Jesus havia deixado como prática e filosofia de vida, testemunhando o que havia acontecido dentro deles uma vez que creram em Jesus e dando todo o suporte para quem quer que se aproximasse deles no caminho.

 

O SANTO FORA DA RELIGIÃO

 

Como mencionei no capítulo sobre Adoração, boa parte das comunidades consideram santas as realidades observadas dentro de seu reduto religioso, e profanas todas aquelas que não são produzidas por pessoas de fé.

Essa dicotomia é completamente reducionista de Deus. Um Deus que só se manifesta em um lugar, em um grupo bem específico, num dia e hora previamente marcados, é um não-Deus. O Salmista disse que “Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem”, os serafins dizem “toda a terra está cheia da Sua glória”, e nós insistimos em achar que Deus só é visto em meio aos cantos e pregações das pessoas religiosas?

Essas ideias não são novas, os judeus do tempo de Jesus tinham pensamentos semelhantes. Sabe quem Jesus apontou como sendo o homem de maior fé em Israel? Um centurião romano! Você ouviu direito: um homem alheio à religião e a genealogia de Israel foi considerado o homem de maior fé daqueles tempos. É o santo fora da religião. O monge beneditino, filósofo e prelado da igreja Anselmo de Cantuária já dizia: Deus tem muitos a quem a igreja não tem, e a igreja tem muitos a quem Deus não tem.

Uma das principais características da religião é tentar delimitar até onde a verdade que ela detém é capaz de ir, e assim, se posiciona para permanecer no centro da necessidade do religioso que a ela recorre. No caso da espiritualidade cristã, ninguém é capaz de deter ou delimitar os caminhos de Deus na terra, tampouco estabelecer condições humanas para o seu agir.

Deus só é Deus de fato, justamente se não pensar e agir com as categorias humanas, visto que os pensamentos Dele são muito mais altos do que os nossos pensamentos.

O Deus que é Deus de verdade cria tudo do nada, é capaz de descer às profundezas do abismo e pregar aos espíritos aprisionados, Deus é glorificado e tem seu poder aperfeiçoado nas mais vis fraquezas humanas, Deus é luz suficiente para entrar em qualquer que seja a mais densa treva existente no universo. Nós estamos falando de Deus e não de um deus a nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Não inverta os papéis!

Deus só fala por meio da Bíblia? A Bíblia é o registro do caminho de um povo escolhido até o cumprimento da promessa do Messias. O Antigo Testamento aponta para Jesus, enquanto que o Novo Testamento é o registro das pessoas que conviveram com Jesus e começaram a se reunir em torno de Jesus. Mas, você acha mesmo que Deus se restringiu à Bíblia e só por meio dela pode falar ao coração humano, para que seja salvo de sua condição de maldade?

De jeito nenhum! Deus fala de Deus em toda a terra e por muitos modos. O autor do livro “O fator Melquisedeque” entendeu rapidamente isso, quando viajou por aldeias isoladas em todo o mundo e encontrou o testemunho de Deus cravado no âmago das crenças e experiências de espiritualidade desses povos.

A Bíblia nos fornece um parâmetro, uma mensagem central, uma profecia viva cumprida em Jesus. Mas, nada de fetichismo com o livro, com as letras ou com a tradução preferida. Há povos que jamais tiveram contato com a Bíblia e experimentaram o gozo eterno de Deus em seus corações, porque Deus fala de Deus no mundo, de muitas formas.

 

OFERTA AGRADÁVEL A DEUS

 

Ofertar a Deus é quase que um sinônimo de “alimentar a conta bancária de uma instituição religiosa”. Estou ciente de que as comunidades formalizadas precisam pagar suas contas, há pessoas trabalhando em tempo integral para o projeto, e de alguma forma são custeadas pela própria comunidade. Contribuir para comunidades sérias, comprometidas com o evangelho é uma oferta a Deus, mas será que é só isso? Será que não estamos deixando algo passar batido? Será que Jesus não falou nada a mais sobre o tema?

Se minha memória ainda funciona direito, creio que Jesus disse que tudo o que fizéssemos a qualquer pequenino, estaríamos fazendo ao próprio Jesus. Não seria essa uma oferta a Deus? Claro que sim! E digo mais: não precisamos (nem devemos) fazer da comunidade a qual participamos o centro de todas as nossas doações na vida.

Há pobres por toda parte! Pessoas ignoradas, desprezadas, marginalizadas, gente que não são um “bom investimento” do ponto de vista empresarial religioso, gente que não vai retribuir a oferta, gente que está em condições tão precárias que nem farão uma visitinha à reunião da sua comunidade, pois são justamente essas pessoas que deveriam ser alvos de nossa intervenção amorosa.

Leia o que Jesus disse: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram;
necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’. “Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ “O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’.

Sedentos, famintos, estrangeiros, abandonados, enfermos, presos são a caixinha de ofertas dos filhos de Deus no mundo, mas há muito pouca ênfase nisso em nossas reuniões. Preferimos que outros sejam intermediadores, outras vezes, preferimos transferir a ação aos políticos, aos ricos, dizendo que eles é quem deveriam estar agindo nessa direção. Somos mestres em terceirizar a fé.

Retomo então a pergunta/tema desse capítulo: Quais são os seus dogmas? O que você elencou que não possa ser discutido dentro de você? Como Jesus trata desse tema?

Talvez neste ponto você se pergunte: será que o Rodrigo é contra os dogmas? Absolutamente não! Eu não relativizo tudo, simplesmente pelo fato de que Jesus não relativiza tudo! Vivemos num tempo de tamanho ceticismo que pra ficar bem com os antirreligiosos a gente tem que negar a própria fé que possui, e para ficarmos bem com os religiosos, precisamos dogmatizar todo o pacote que nos ofereceram como verdade absoluta.

Eu vivo no limbo! Não relativizo tudo, mas também não dogmatizo tudo. Existe uma espécie de “espinha dorsal” no ensino de Jesus que fazem parte do “espírito do evangelho” que é de geração em geração, é eterno e absoluto. Mas, há uma porção de realidades que nos foram apresentadas por Jesus e os apóstolos como circunstanciais, passíveis de adaptação e desenvolvimento a partir da nossa realidade, e que, portanto, precisam ser consideradas assim, flexíveis.


Essa versão é apenas uma prévia, ou seja, não coincide com a integralidade do que será publicado no Livro. Justamente por isso, além do grupo de curadores do livro (pessoas que estão me ajudando a, melhor expressar as ideias contidas nele), gostaria de suas opiniões e contribuições também nos comentários desse post, pelo qual agradeço imensamente!

Se você quiser ajudar financeiramente na publicação desse livro acesse: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/livro-minha-fe-se-discute

Se você quiser saber mais sobre a publicação desse livro clique aqui

Obrigado

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Rodrigo Campos
Um Caminhante Aprendiz

 

 

 

 

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