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Game of Thrones – A vida nua e crua

Uma das mensagens mais evidentes em Game of Thrones é a fragilidade da vida. Em todos os episódios a vida é banalizada, se esvai por dinheiro, por posições na realeza, por mero desentendimento, por estar no lugar errado e na hora errada. Às vezes o assassinato acontece simplesmente sem razão alguma, por mero prazer, por ínfimo capricho do matador.

Há nisso alguma harmonia com a realidade? Sim! Muita. Infelizmente. Há pessoas que simplesmente valorizam a vida do outro tanto quanto valorizam um palito de dente que usam e depois jogam fora. A gente não gosta de lidar com tamanha dose de verdade, a gente prefere se esconder disso, fingir que não existe, deixamos a crueza da maldade para os filmes, as injustiças da vida para os filósofos tentarem explicar, fazemos de tudo pra não ficarmos cara a cara com o fato de que morremos, sofremos, vivemos dramas inexplicáveis, acidentes cruéis, ambiguidades inafastáveis da alma.

Assistir mutilações, cenas de tortura gratuita, infanticídio (na série) revelam a nós (engomadinhos e fugitivos errantes) o que fizemos como seres humanos nas guerras, no nazismo, nas favelas, nos becos, nas cruzadas, na inquisição, nos julgamentos dos tribunais, na calada da noite, fizemos no passado e ainda fazemos todos os dias, toda hora, por todo lado, basta abrir os jornais.

A vida é muito pior do que ela parece e eu sei o quão desagradável é saber disso. Precisamos lidar com isso. Às vezes não damos conta de que a maioria de nós que estamos aqui, com internet, acessando esse blog, somos verdadeiros privilegiados. Não que não tenhamos sofrido na vida, mas possivelmente sofremos infinitamente menos do que milhares de pessoas ao nosso redor. Isso deveria causar duas coisas em nós: gratidão e empatia!

Os livros podem nos ajudar na ampliação dessa percepção (tem vários relatando vidas com histórias de “carne viva”), uma visita ao hospital de câncer, ao orfanato municipal, aos abrigos da cidade também podem ter um papel importante nesse processo. O simples ato de sentar com um morador de rua e perguntar-lhe sua história de vida pode te mergulhar nesse reino desencantado da não-Disney.

A vida nua e crua revela nossas ambições, nossas maldades, nossas paixões, nossas separações, nossos desafetos, cujo cheiro beira ao do calabouço dos castelos, só que na alma, são aqueles ambientes que tememos visitar, mas sabemos que sempre estiveram lá. Geralmente só resolvemos lidar com eles quando estamos em perigo, sofrendo ou quando fizemos uma cagada impossível de fingir sua inexistência (por causa da sua publicidade).

Os psicólogos também conhecem esse mundo. Talvez melhor que os maus psiquiatras, que por vezes fazem diagnósticos rápidos e receitam logo seus comprimidos pra problemas profundos e trabalhosos demais de se lidar. Os policiais convivem com esse mundo, os políticos também, os professores então, nem se fala. E alguns os veem como salvadores da pátria ainda que mal pagos, mal treinados e jogados no meio do caos pra tentar trazer o mínimo de decência à consciência dos alunos.

A vida crua e nua cheira mal, tem mosquitos em torno da ferida, é inconveniente, soa como má notícia, se parece como uma besta-fera faminta procurando sua refeição, devorando sem dó nem piedade quem quer que se aproxime dela. Sem perguntar seu merecimento, sua índole, a importância do nome da sua família, seus sonhos, sua fé ou sua esperança. Assim é a morte, a dor, o sofrimento e o desalento.

Um tropicão faz bater a cabeça no asfalto e deixar uma família inteira em luto e reverente choro incontido. Vida frágil como as asas de uma borboleta, como uma mosca no furacão, como um bebê no meio da selva, simplesmente à espera do seu golpe fatal.

Há mais sabedoria na casa do luto do que na que há festa. 

Ler Eclesiastes faz mais sentido agora? E o que falar de Jó e sua teodiceia? Às lamentações de Jeremias se tornaram mais palatáveis? E as canções do Rei perseguido, soam mais legíveis ao seu entendimento? E o grito do cego: “Filho de Davi, tenha compaixão de mim”, teria a partir de agora a sua atenção? E quanto aos samaritanos, prostitutas, desprezados, homossexuais, depressivos, idosos, negros, pobres e demais marginalizados te parecem mais familiares?

Você, sob a ótica da vida nua e crua, é melhor do que algum outro ser humano sobre essa terra? Arrancando as pompas, a reputação, os desfiles de vaidade, a imagem construída socialmente, o que sobrou de você pra levantar uma escultura a si próprio? Passando a peneira da verdade, quantos cacos sobram pra reconstruir sua identidade?

Quais foram os choques de realidade que você já teve na vida? Quão perto você já esteve da injustiça, do sofrimento profundo e da maldade?

Rodrigo Campos
Um Caminhante Aprendiz

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