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Merecimento

Sempre fui treinado e exigido para ser o melhor. Desde a infância me era cobrado as melhores notas, afinal de contas, segundo meus pais eu era um garoto inteligentíssimo, menos que a nota 7 não era admissível para mim, pelo contrário, era punido com belas cintadas na bunda.

Na selva da vida religiosa, apesar de um discurso repleto da palavra “graça”, “amor”, “bondade”, sempre me era cobrado resultados, números, desempenhos, participações em eventos e ministérios, precisava de alguma forma demonstrar que merecia ser aprovado socialmente, precisava seguir o script, precisava me destacar e, via constantemente outros serem desprezados, criticados, reparados por não demonstrarem um envolvimento suficiente.

Desenvolvi com o passar dos anos uma espécie de perfeccionismo exagerado, uma auto-exigência esmagadora, que impunha sobre mim um alto padrão de comportamentos, condutas que me faziam merecer a profundidade das percepções em relação à fé. Não era à toa que considerava outros à minha volta sempre minimizados em relação aquilo que acontecia em mim.

Afinal de contas é assim no capitalismo: meritocracia. Tudo ao nosso redor respira assim, com esse espírito. Quer ter dinheiro? Mereça! Quer ser valorizado socialmente? Mereça! Quer ganhar o presente de Natal? O bom velhinho precisa entender que você mereceu, que no ano todo você foi um bom garoto! Isso é bem pesado.

Quando digo isso estou exaltando a preguiça, a acomodação, o comodismo, a passividade, a pobreza, a vida sem frutos? De forma alguma. Quem quer que viva está debaixo do desafio de colocar as mãos na massa e lutar veementemente pelo seus sustento e pela sua própria expansão de conhecimentos e habilidades para desenvolver um tipo de tarefa que lhe remunere. Mas, quando o assunto é aprovação de Deus, essa ideia de merecimento precisa ser sepultada! Não é pelo que mereço que a salvação vem, é pela generosidade do Pai; não é pela conduta aprovada, é pela receptividade a uma obra já realizada em meu favor, a um “está feito” mais que suficiente, sem acréscimos, sem barganhas, sem pesos adicionais.

Quando a gente entende isso e se livra da síndrome da meritocracia, o caminho para a obediência natural aos apelos do amor nos é aberto! Não digo natural pelo fato de ser fácil ou por não empreender algum tipo de esforço. A carne sempre guerreará contra o espírito, dentro de nós. O vencedor sempre será aquele para quem dou mais espaço e alimento mais. Disse obediência natural, pois ela não tenta acontecer debaixo da exigência da meritocracia, do auto valor aliado aos resultados, performances e exigências externas. Ela é natural, pois acontece de dentro pra fora, processualmente, lidando com erros, percalços, que já foram perdoados de antemão, antes mesmo de cometê-los, e por isso sobra-se apenas a diligência de aceitar esse perdão que sempre esteve entre Deus e nós, o tempo todo, a gente que não enxergava.

Todas as vezes que eu me vejo voltando aos auspícios das tentativas de ser “agradável a Deus” pelos meus próprios esforços, pelo meu merecimento, voltam as angústias de quem descobre sua impossibilidade pelo simples fato de eu ser um “miserável homem pecador necessitado de ajuda”. Quando me esqueço dessa verdade as compulsões se manifestam com toda força, procuro culpados pela minha infelicidade dentre os que convivem comigo, vivo em estado de constante julgamento para com aqueles que me rodeiam para tentar me sobressair sobre eles, ainda que inconscientemente, no fundo no fundo, um jeito de colocar o mundo numa competição para ver quem é o mais santo, e claro, usando a mim mesmo como referência, como se eu fosse alguma coisa. Quanto tempo perdido!

Por isso, minha oração nessa manhã de domingo é: “Salva-me de mim mesmo, Senhor. Salva-me de querer ser alguma coisa diferente do que alguém alcançado por seu amor infinito e cheio de misericórdia. Salva-me de querer apresentar esforços dignos, salva-me de carregar esse peso religioso da obediência aos rituais que resultam em bençãos de ti advindas. Salva-me de me tornar amigo dos fariseus e inimigo dos “doentes que clamam por cura”. Salva-me de atrelar à nota 10, o meu valor, a minha relevância. Salva-me contra aquilo que sempre se manifestou o meu maior inimigo: salva-me de mim mesmo”!

Rodrigo Campos
Um Caminhante Aprendiz
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