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Cap. 2 – O que é adoração – “Minha Fé se Discute”

 

Por toda a minha experiência cristã cantei canções que repetiam incansavelmente: “Te adoramos, Jesus”. Dos anos 2000 para cá dificilmente você encontrará uma música que não tenha a palavra “adoração” ou seus derivados em suas estrofes e refrões. Mas, afinal de contas, o que é adoração? Parece que, pouco a pouco, foi se tornando entendimento do senso comum que adoração significa, dentre outras coisas, levantar as mãos, se prostrar, cantar com fervor (com a sinceridade de quem leva a sério tais palavras), elogiar a Deus pelos seus atributos, se ajoelhar em homenagem a Deus em contrição de espírito. Não é difícil encontrar pessoas dizendo: “Vou à casa do Senhor adorar a Ele” (fazendo menção ao Salmo que diz “Alegrei-me quando me disseram, vamos à casa do Senhor”).

A partir dessa ideia de adoração, criaram-se congressos de louvor e adoração, movimentos de adoração extravagante (cuja característica é a busca da ‘extravagância’ de se expressar e se movimentar com mais liberdade durante as canções nas reuniões), oração de adoração (que é aquela em que o indivíduo passa bastante tempo elogiando a Deus, como se Deus precisasse de tapinhas nas costas e massagens no próprio ego, dizendo ‘Tu és grande, Tu és Santo, Tu és Poderoso, Tu és Digno, Tu és Perfeito, etc’), cultos de adoração (reuniões cujo foco principal são as músicas e as ‘ministrações’ entre uma música e outra), etc. Há inclusive quem faça a distinção entre ‘louvores de adoração’ (canções mais lentas e intimistas) e ‘louvores de celebração’ (canções mais rápidas e celebrativas).

Vemos assim, sempre a adoração sendo relacionada (no meio da maioria dos cristãos) à músicas cantadas nas reuniões e às posturas físicas e verbais que conotem uma devoção a Deus nesses momentos.

As bases usadas para afirmar que adoração consiste nessa repetição de elogios a Deus em forma de palavras e canções são variadas. Alguns recorrem a visão que Isaías teve dos serafins que diziam uns aos outros “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia de sua glória”, outros citam a revelação do Apocalipse de que os quatro seres viventes, de noite e de dia repetem sem cessar “Santo, santo, santo é o Senhor, o Deus todo-poderoso, que era, que é e que há de vir”, também há aqueles que recorrem aos vinte e quatro anciãos que se prostram diante daquele que está assentado no trono (Jesus) e, lançando suas coroas diante do trono dizem “Tu, Senhor e Deus nosso, és digno de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existem e foram criadas”.

Sendo eu alguém que sempre liderou os assim chamados ministérios de música, repeti esses conceitos sobre adoração, anos a fio, em inúmeras ocasiões. Mas, daí você me pergunta: Qual o equívoco disso? Vou tentar te responder convidando-o, antes a relermos a conversa de Jesus com uma certa mulher samaritana sobre exatamente o tema da adoração.

Depois de conversar sobre vários assuntos com Jesus, ela lhe perguntou: “Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. Note que a ideia dela sobre adoração se dava a partir da cultura judaica, ou seja, sob a ideia de lugarização  a partir de um rito que acontecia no monte e em Jerusalém, no templo e, portanto, era religiosamente externa. Adoração para ela eram os ritos ordenados na Antiga Aliança, onde todos se locomoviam até o lugar sagrado e ali faziam sacrifícios segundo a Lei de Moisés.

Jesus respondeu aquela indagação dizendo: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Veja que em Jesus a adoração ganhou uma dimensão absolutamente descentralizada de qualquer que seja o lugar considerado como sagrado (por isso se diz: ‘nem neste monte, nem em Jerusalém’), e mais, trouxe seu significado essencial para a experiência do coração humano (espírito e verdade). É no coração que Deus quer ser adorado, é na instância das intenções, das motivações e de tudo aquilo que antecede qualquer ação externa (rito), é portanto, na vontade essencial de viver Nele, para Ele e por Ele.

Adoração não é sinônimo de cantar música chorando para Ele, mas sim de inclinar o espírito na direção de Sua vontade, para então viver conscientemente na verdade e pela verdade, pois Ele é a verdade!

Mostre-me um só momento em que Jesus tenha adorado o Pai nos moldes atuais de adoração? Isso será impossível, pois você não encontrará nada que dê base para isso. No máximo você conseguirá citar o único momento, em todos os evangelhos, em que Jesus cantou uma canção depois da ceia (que inclusive fazia parte da liturgia judaica da festa pascal). Você não vê Jesus cantando emocionado repetindo milhares de vezes que o ama, que o adora e que se rende a Ele! Você também não encontra Jesus repetindo milhares de elogios a Deus dizendo: ‘Tu és bom, Tu és justo, Tu és lindo, Tu és tremendo, Tu és maravilhoso’, como se nisso consistisse a verdadeira adoração. Pelo contrário, você encontrará Jesus vivendo a adoração (que antes de tudo é a sua vontade rendendo-se à vontade do Pai) em sua prática de amor, levantando o caído, restaurando o enfermo, fazendo toda a obra que Seu Pai lhe ordenou. Adoração, portanto, é obediência consciente ao amor, e Deus é amor.

Talvez a situação em que a adoração de Jesus ao Pai foi melhor definida em toda a escritura, se deu quando Ele disse: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra”.

Muitos de nós sabemos cantar hinos cheios de histórias bíblicas e de palavras elogiosas a Deus, e achamos que ao fazê-lo e nos emocionarmos com isso, estamos praticando o próprio ato de adoração, porém, como vimos o verdadeiro adorador é aquele que adora no espírito e em verdade. Se nosso espírito não está submetido à vontade do Santo Espírito e ao Pai dos espíritos (conforme o escritor aos Hebreus), e por tanto, viver em verdade e amor, tudo o mais não passa de expressão religiosamente vazia e sem valor, sinceramente equivocada no seu significado.

Isso talvez leve você a entender o fato de que não há menções de orientações, nas escrituras para “grupos de louvor e adoração” nas comunidades dos discípulos de Jesus logo após sua ressurreição. Sabe porquê? Porque a adoração é vista como obedecer a tudo quanto Jesus ensinou. Essa é a ênfase do ensino dos apóstolos, é esse o conteúdo do chamado universal de Jesus: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”. O que isso tem a ver com adoração? Absolutamente tudo! E o que isso tem a ver com músicas que emocionam ou com posturas físicas durante as canções? Absolutamente nada! Repito: A adoração é, em suma, obedecer a tudo quanto Jesus nos ensinou, e isso, não é uma ação isolada numa reunião de domingo noite, mas sim, um espírito rendido a Deus no cotidiano, nas decisões mais elementares e nas posturas que assumimos frente aos desafios da vida.

Talvez essa falsa ideia de que em cantando e se emocionando a adoração já estaria acontecendo, acabou gerando em muitos, a ideia de “dever cumprido”. Ou seja, é como se seguir a Jesus se resumisse a frequentar uma reunião, cantar com fervor algumas canções e ir embora para casa num sentimento de que “fiz a minha parte”. Isso tem um potencial enorme de produzir ótimos religiosos (pessoas que cumprem certos ritos e se vangloriam de serem assíduos e obedientes a tais ordenanças), mas não, necessariamente traz o significado de ser um discípulo de Jesus.

É nesse afã que muitos departamentalizam a vida, separando a adoração (experiência da reunião coletiva) da vida secular (trabalho, família, estudos etc). É a famosa dicotomia entre o sagrado (coisas do espírito) e o profano (coisas da matéria), que é mais gnóstica do que cristã.

O verdadeiro adorador, discípulo de Jesus, observa a maneira como Jesus trata as pessoas, para trata-las de igual modo; o discípulo ouve o caminho proposto por Jesus em suas pregações, para justamente caminhar sobre ele; o discípulo observa a maneira como Jesus se relaciona com o Pai e com os temas da vida justamente para adquirir a mesma consciência e postura de vida. Do contrário, não há discípulo, há sim, um mero religioso que segue doutrinas de homens para atingir as expectativas de determinados líderes religiosos e as suas próprias.

O próprio Jesus advertiu os religiosos de seu tempo com essas palavras: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens’”. Não tenho dúvidas de que essas palavras são válidas ainda para o nosso tempo hoje, inclusive talvez ela se aplique a você, que está lendo esse livro, e fico pensando se ela também não descreve a minha realidade também! Todos nós temos um grande potencial em transformar a verdade do ensino de Jesus em mera roupagem religiosa, que não passa de culto às aparências e às nossas tradições, e que se perdeu em quase sua totalidade do significado essencial do ensino de Jesus.

Adoração a Deus, que antes de tudo é interior, também se manifesta na maneira como trato o meu próximo, afinal de contas, como disse João, “se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. Adoramos a Deus perdoando, acolhendo, alertando com mansidão e empatia, sendo atenciosos, vivendo como hospitais ambulantes, praticando o amor fraternal, suportando o outro em suas necessidades. Tiago também nos ajudou nessa compreensão quando disse que “a religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”.

Se essa consciência de adoração se instalar em nós, tudo o que cantarmos, pensarmos e falarmos vai simplesmente expressar a realidade já vivenciada, por nós no cotidiano, ou seja, a verdade! Essa é a adoração que Deus aceita: em espírito e em verdade.

Pois, também já houveram períodos na história de Israel em que a música cantada e as declarações públicas das reuniões, destoavam profundamente da justiça praticada para com o próximo. Sabe como Deus reagiu a tais reuniões? Ele disse: “Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras. Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!”. E mais, “parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim. Luas novas, sábados e reuniões! Não consigo suportar suas reuniões cheias de iniquidade. Suas festas da lua nova e suas festas fixas, eu as odeio. Tornaram-se um fardo para mim; não as suporto mais! Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva. Vejam como a cidade fiel se tornou prostituta! Antes cheia de justiça e habitada pela retidão, agora está cheia de assassinos!”.


Essa versão é apenas uma prévia, ou seja, não coincide com a integralidade do que será publicado no Livro. Justamente por isso, além do grupo de curadores do livro (pessoas que estão me ajudando a, melhor expressar as ideias contidas nele), gostaria de suas opiniões e contribuições também nos comentários desse post, pelo qual agradeço imensamente!

Se você quiser ajudar financeiramente na publicação desse livro acesse: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/livro-minha-fe-se-discute

Se você quiser saber mais sobre a publicação desse livro clique aqui

Obrigado

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Rodrigo Campos
Um Caminhante Aprendiz

 

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3 comentários em “Cap. 2 – O que é adoração – “Minha Fé se Discute” Deixe um comentário

  1. Que coisa mais incrível!!!, Rodrigo Campos, Louvo a Deus pela sua vida, por se permitir ser um vaso de Bênção que permanece nas mãos do Oleiro, Deus está sendo glorificado através de tudo que você expressou nessas linhas, ainda quero tecer outro comentário aqui sobre tudo que escreveu nesse capitulo 2, más de início quero apenas parabenizá-lo e dizer que anseio os próximos capítulos…fico na expectativa a cada leitura, está me abençoando sobremaneira.

    Curtido por 1 pessoa

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