Desencanto com a estrutura institucional e eclesiástica

O desencanto sentido vem no bojo de uma herança cultural e inclusive religiosa, recheada de consequências de uma realidade capitalista que herdamos com a globalização, muitas vezes sem ética, cuidado ou  preocupação com o bem comum ou com o outro. A combinação de uma elite reinante desde a revolução de 1964, mais o clero religioso católico e depois protestante, alicerce de uma igreja “ritualista e vazia, e com tráfico de influência”, trouxe sequelas enormes nos últimos cinquenta anos. O poder social e político, misturado com o poder espiritual, se tornou ingrediente inclusive da teologia da prosperidade, difundida por Kenneth Hagin.

Creio que a ação e a prática pastorais têm sido conduzidas de acordo com muitas mudanças, intencionais ou não, de diretrizes e estruturas que vão centralizando cada vez mais na instituição o poder de decisão e condução do que deve ser feito e realizado. Isso reflete uma agenda nem sempre centrada na essência, natureza e missão da igreja e da comunidade da fé. Ela tende a reproduzir o modelo engessado e sem grande mobilidade, se acomodando aos padrões vigentes da sociedade, envolta num consumo desenfreado. A pessoa e o ministério do pastor local passaram a ser mais vigiados e controlados pelos mecanismos que a instituição vai criando e aprimorando. Como sempre, a luta pelo poder e controle.

O líder, ou quem deseja se associar à instituição, passou a se submeter ao tipo de controle muitas vezes arbitrário da estrutura a que estava ligado.  É convidado, levado e impelido a aderir ao jogo de poder que a instituição está propondo, caminho necessário para sobreviver nela, tornando-se um elemento orgânico desfocado e uma peça da engrenagem instituição. A relação da ovelha com o pastor ou líder se torna uma visão hierarquizada e sufocante.

Sou daqueles pastores que já sugeriu em muitos seminários, nos quais lecionei, que se colocasse na grade curricular uma matéria específica e obrigatória que teria o nome de “como fazer política para sobreviver em uma instituição”, matéria essa que ajudaria a enxergar os interesses, nem sempre corretos dela, além de seus limites e contradições, como tentar sobreviver nela, combinando vocação e carreira etc. Seminaristas de várias denominações diriam ou confirmariam isso em seus primeiros anos de atuação, pois vivem sob essa pressão de construir seu caminho ministerial. É impressionante como encontramos pessoas que transitam e ocupam cargos quase adperpetuam nas estruturas eclesiásticas quando indicados para tais.

São estruturas geradas por convenções, concílios, presbitérios ou sínodos, planejadas em estatutos inflexíveis, e que algumas vezes, em vez de se tornarem facilitadoras para a obra e atuação cooperativa e comunitária tanto para o trabalho missionário como para o crescimento em comunhão da igreja, tornam-se obstáculos, quando engessadas, e vão invariavelmente perdendo o foco do serviço ao evangelho a que se propuseram. Igualmente, as igrejas chamadas independentes, livres ou autônomas, sem ligação com ninguém, não estão isentas, pois correm riscos semelhantes e tornam-se às vezes até mais legalistas e personalistas.

Reconheço também que a instituição não tem levado em conta a realidade urbana na qual a igreja está inserida, em que a migração das pessoas para as cidades é algo comum e frequente. Mas o desencanto é contínuo, tanto nas realidades rurais como nas realidades fortemente urbanas. A instituição alimentada por lideranças inseguras e com sede de poder gera e fomenta um solo propício ao desencanto, à decepção e à exploração de pessoas, muitas delas com capacidade para olhar e agir de forma a contribuir para o crescimento orgânico, mas que não conseguem, e só alimentam a instituição em sua superficialidade.

Nelson Bomilcar
nelsonbomilcar@hotmail.com
Nelson Bomilcar


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