Os outros

“O inferno são os outros”, disse Jean Paul Sartre. De fato, de vez em quando, somos assolados pela ideia de que nossa vida seria bem menos complicada se não estivesse tão povoada, e não restam dúvidas de que é sempre mais fácil colocar a culpa nos outros. Mas também é verdade que nossa peregrinação existencial é feita em caravana. Ninguém viaja sozi­nho. Não podemos descartar as pessoas. Precisamos encontrar mecanis­mos que possibilitem a longevidade de nossas convivências.

Ao comentar esse texto, meu amigo Ricardo Gondim disse que “o in­ferno não é o outro, o inferno é a ausência do outro – especialmente do grande Outro”. Subscrevo.

Vinicius de Moraes escreveu que:

“… a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, ou se recusa a partici­par da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir–se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

Mas é bem verdade que não são muitos os que sabem conviver. Meus pou­cos anos de prática pastoral foram suficientes para me ensinar a diferença entre amar os relacionamentos e amar as pessoas com quem nos relaciona­mos. Aqueles que amam os relacionamentos pulam de um para outro toda vez que surge uma tensão que demandaria esforço para a solução. Racioci­nam em termos de custo–benefício. Calculam o preço que precisam pagar para manter aquele relacionamento e geralmente optam por encerrar a convivência e buscar outra pessoa com quem se relacionar. É comum entre casais, entre sócios e até mesmo entre amigos.

Isso acontece porque nem todas as pessoas estão dispostas a rever posturas, atitudes, comportamentos e convicções. São as que dizem:

—Eu nasci assim, quando você me conheceu eu era assim, e quando decidiu ficar comigo sabia que eu era assim.

A resposta óbvia seria:

—E verdade, eu sabia que você era assim, mas não imaginei que você pensasse em si mesmo como obra acabada.

Quem ama relacionamentos não tem disposição para mudar, ceder, deixar–se transformar, pois se satisfaz, ou pensa que se satisfaz, enquanto o relacionamento é satisfatório. Quando o relacionamento começa a gerar desconforto, então, dizem “não” ao relacionamento e trocam de par. Na verdade, essas pessoas não amam apenas os relacionamentos, amam a si mesmas. Tudo o que querem é sua satisfação, em seus termos. Enquanto o outro, qualquer que seja ele, satisfaz, o relacionamento perdura. Quando o relacionamento começa a exigir ajustes, e cada um é convidado a dar passos para trás, o fim fica cada vez mais próximo.

Os que amam as pessoas com quem se relacionam, entretanto, estão dispostos a focalizar o relacionamento em detrimento de focar as imper­feições de seus pares. As perguntas que fazem não são “onde você está errado ou errada?” ou “o que você precisa mudar?”, mas sim “por que não estamos conseguindo uma relação satisfatória?” e “o que podemos fazer para continuarmos caminhando juntos?”.

Isso demonstra sabedoria e maturidade. O foco no relacionamento, em detrimento do foco nas pessoas, revela a consciência que desmascara a ilusão do parceiro perfeito. Quem vive trocando relacionamentos não apenas está se recusando a mudar, mas provavelmente acredita que existe sempre alguém mais adequado e capaz de lhe satisfazer. Evidentemente, há o universo de afinidades que possibilita a convivência. Mas uma vez identificadas as afinidades, a discussão deve mudar para o tipo de convi­vência que conseguem desenvolver, em detrimento do tipo de pessoas que são. Até porque uma das razões para um relacionamento é a mutualidade, que possibilita a mudança dos pares, cada um ajudado pelo outro. Não existe par perfeito. Existe, sim, convivência equilibrada. Em outras palavras, não existe isso de dizer “você não é a pessoa certa para mim” ou “você não tem as qualidades que espero de um amigo”, princi­palmenle depois de dez anos de convivência. O correio seria dizer: “infe­lizmente, não conseguimos desenvolver uma parceria satisfatória”. Mas depois dessa conclusão, os pares deveriam sentar e dizer um ao outro que por não amarem o relacionamento, nem a si mesmos no relacionamento mas por amar um ao outro, estão dispostos a fazer quaisquer sacrifícios necessários para que não percam um ao outro. A discussão passa a ser a dinâmica da convivência. Não estão em busca de um par melhor, mas sim de um jeito melhor de ser um par. Não querem outro parceiro. Querem outra parceria com o mesmo parceiro.

Acredito que toda parceria satisfatória se desenvolve a partir de três capacidades de cada uma das partes: a capacidade de celebrar, de servir e de perdoar.

Ed René Kivitz
Extraído do livro: Vivendo com Propósitos
http://www.edrenekivitz.com/
ed-rene-kivitz


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