Eu tenho entranhas que se remexem

SOFRER

Os gregos não buscavam o amor. Buscavam a paz. Mais precisamente, a serenidade, um espírito inabalável, resultado de duas características que deveriam ser desenvolvidas no ser humano: autárkeia apátheia.8 

Autárkeia era a perfeita independência. A perfeita auto–suficiência em relação a qualquer objeto ou qualquer pessoa. Era uma atitude própria daqueles que acreditavam que encontrariam sua plena realização e sua felicidade em si mesmos, isto é, que não podiam depender de nada fora de si mesmos para que se tornassem realizados e felizes.

 Aapátheia era a incapacidade de ser abalado. Daí vem a nossa palavra apatia, que o Aurélio define como “estado de insensibilidade; impassibilidade, indiferença. No cepticismo e no estoicismo, estado em que a alma se torna insensível à dor e a qualquer sofrimento”. O estóico Epicteto, contemporâneo do apóstolo Paulo, ensinava que “o homem pode desenvolver afeição, desde que nunca, em tempo algum, dependa de ou­tra pessoa para a sua felicidade e alegria […]. A filosofia é o treinamento para a indiferença. Os homens nunca devem fixar seus corações em ne­nhum objeto ou pessoa, porque nada e ninguém deve ser necessidade para um homem. O homem deve ensinar–se a não se importar com nada”. Dizia que o homem “primeiro deve começar a não se importar com coisas sim­ples, uma xícara, por exemplo, que pode se quebrar, depois, um miserável cachorro, um mero cavalo, um pedaço de terra, mais adiante, e facilmente chegará a não se importar com o seu próprio corpo e com o que acontece consigo mesmo, então finalmente poderá perder os seus filhos e esposa e não se importar”.

Epicteto acreditava que “o amor é uma escravidão” e, nesse sentido, a filosofia é o treinamento para a indiferença. O amor é uma escravidão. Exatamente durante os dias de Epicteto, os cristãos começaram a espelhar a mensagem que ensina a amar. William Barclay comenta que enquanto a filosofia pagã dizia: “Ensina–te a não te importar”, Cristo diz: “Ensina–te a te importar, apaixonada e intensamente com os outros”. A filosofia pagã dizia: “Não deves, em circunstância alguma, ficar pessoal e emocionalmente envolvido na situação humana”. Cristo diz: “Deves entrar na situação hu­mana de tal maneira que vejas, penses e sintas com os olhos, a mente e o coração da outra pessoa, do teu próximo, com quem te identificas”.

Enquanto os gregos acreditavam que a maturidade está na indiferen­ça, na capacidade de não ser abalado, de não ser afetado, de não ser demovido de sua estabilidade, o cristianismo vem dizendo que a maturi­dade da existência humana está justamente na capacidade de importar–se, de deixar–se abalar, de deixar–se demover, de ter o coração revolto dentro de si, as entranhas remexidas a ponto de Jesus dizer: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”.9A maior característica de vocês será esta: olharão para os outros e se importarão com eles; não estarão centrados em si mesmos, olhando para dentro, acos­tumados e acomodados numa felicidade interior, pelo contrário, jamais conseguirão ser plenamente felizes convivendo com a dor alheia, porque a dor alheia há de impactar o seu coração. Serão escravos do sofrimento dos outros. Isso é amar.

Talvez, numa expressão simples, mais constrangedor é o pranto de Jesus no sepultamento de Lázaro do que seu caminhar sobre as águas, porque o caminhar sobre as águas, o multiplicar de pães, demonstra po­der e autoridade, mas o pranto de Jesus, no sepultamento de Lázaro, demonstra que ali está um Deus que se importa, e que se importa comigo e com você. A atenção de Jesus ao cego que grita: “Filho de Davi, tem compaixão de mim” demonstra que ali caminha um Deus que se impor­ta, e que se importa comigo e com você.

O “Deus cristão” não é o “deus grego”. Não é o deus estável, inabalá­vel, o deus que não é mexido por nada, pelo contrário, e um Deus que chora, um Deus que se importa. Os evangelhos afirmam que Jesus foi movido de íntima e profunda compaixão, o que significa que suas entra­nhas foram remexidas.10 Quando Jesus passava sobre os mendigos nas calçadas e seu coração batia mais acelerado, ele sentia alguma coisa na boca do estômago ou o que nós costumamos chamar de nó na garganta Jesus via uma prostituta sendo arrastada pela rua e lacrimejava. Jesus via crianças e abaixava–se para pegá–las no colo e contar histórias. Jesus passa­va por pessoas empoleiradas para que pudessem vê–lo e cruzava com ela o olhar. Nessas horas, seus olhos se enchiam d’água, e ele dizia:

—Hei, você, vamos conversar em particular.

Pudesse eu definir em uma expressão o que é amar, diria que amar e importar–se. O que é amar? Amar é importar–se. Nós achamos que amar é passar por uma pessoa que sofre e sentar ao lado dela, colocar o braço em volta de seu ombro, chorar com ela e suprir sua even­tual necessidade. Mas amar também é en­trar no templo cheio de comerciantes da fé e dar pontapés em todas as mesas, como fez Jesus. É dizer:

—Eu amo, eu tenho entranhas que se remexem, sou vulnerável.

Amar é se importar a tal ponto de nos tornarmos escravos do zelo pelas realidades que amamos. A maturidade não é a estabilidade que dei­xa de ser vulnerável. Na verdade, quanto mais vulneráveis nos tornamos mais maduros e completos ficamos.

Ed René Kivitz
Extraído do livro: Vivendo com Propósitos
http://www.edrenekivitz.com/
ed-rene-kivitz


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