The Dones #10 – As conversas que mais importam

Há mais de trinta e cinco anos eu estava com um grupo de pastores discutindo onde nos sentíamos mais vivos no ministério. Não demorou muito para eu responder. A minha resposta foi: Me sinto mais vivo quando estou no palco, com a Bíblia na mão, expondo as Escrituras com minha voz firme e alta, dizendo muitas palavras segurando a multidão em minhas mãos, movendo-a ao riso, à coragem e às lágrimas por causa da visão que eu estava compartilhando.

Mas eu estava apenas na metade dos 20 anos de nada naquele momento, então minha ignorância deve ser desculpada. Eu não daria a mesma resposta hoje. Quando olho para trás, entendo perfeitamente que aquele momento era muito mais um atendimento às minhas necessidades pessoais como pregador do que o atendimento às necessidades daqueles que me ouviam. Hoje entendo que minha maior alegria é ajudar uma pessoa a enxergar uma realidade maior do que a que ela enxerga, e assistir as luzes do alto virem até seus corações.

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Olhe para as fotos em contraste, acima – em uma, eu estava falando em uma conferência na Alemanha há alguns anos atrás, na outra eu estou compartilhando da vida em uma casa no Brasil, mais ou menos na mesma época. Para a maioria das pessoas que lidam com o “ministério”, meus melhores momentos estão relacionados à foto da esquerda. É muito mais fácil seguir um esboço pré-planejado do que arriscar ter uma conversa fluente e lidar com lutas imprevistas e questões difíceis.

Se você estivesse com alguém com quem quisesse aprender, onde você preferiria estar com ele, numa conferência ou numa conversa durante uma refeição? Se eu fosse convidado para uma aula de golfe com um famoso profissional de golfe, preferiria estar com ele sozinho num campo de golfe do que num estádio observando-o numa plataforma. Essa é a lição! No palco ele falaria em forma geral e todos teriam que tentar usar a mesma técnica horas depois, quando chegassem a um campo de golfe (quando provavelmente não se lembrariam mais de muita coisa). Mas, se fosse só nós dois, ele veria a forma como me posiciono, ele ouviria os problemas que estou tendo, e poderia me oferecer soluções específicas para minha dificuldade imediatamente.

Ao longo dos últimos quarenta anos, observei uma mudança encantadora em meu pensamento sobre ensinar e ajudar os outros nesta jornada. Eu pensava que o sucesso e a eficiência são encontradas numa conferência falando para milhares de pessoas que eu não conheço através de sermões, podcasts ou publicações; hoje penso que os momentos mais transformadores se encontram em conversas com pessoas que eu estou conhecendo.

O primeiro momento em que fui despertado a respeito disso foi há mais ou menos uns 20 anos atrás, enquanto eu almoçava numa terça-feira com um amigo meu. Antes de nos sentarmos, ele queria me dizer o quão importante foi meu sermão na manhã de domingo. Ele disse: “Esse foi o melhor sermão que já ouvi, e nunca mais serei o mesmo”. Quando perguntei o que tinha mais atraído ele naquele sermão, ele ficou com um olhar perdido em seu rosto, enquanto tentava voltar a lembrá-lo. Durante os próximo cinco minutos, percebi ele se mexendo desconfortavelmente por não ter se lembrado nenhum ponto da mensagem, nem mesmo do texto. Ele me implorou para ajudar, mas agora eu estava intrigado por ver porque ele estava tão entusiasmado com um sermão que ele não conseguiu lembrar dois dias depois. Este não era um homem dado a elogios vazios. Isso me fez pensar qual a eficácia de uma palestra como ferramenta de ensino.

Como viajei nesses últimos vinte anos, fiquei particularmente consciente de que as conversas mais informais e mais interativas eram o fruto mais duradouro que produziam. Agora sei que os compartilhamentos que acontecem antes e depois das reuniões têm maior impacto sobre as pessoas. Dirigindo um carro, sentar-se para uma refeição, ou simplesmente pausar para responder uma pergunta individual, tudo isso tem mais impacto. É por isso que eu prefiro ficar em casas e não em hotéis, quando viajo, e prefiro as conversas!

Quando leio os Evangelhos agora, é fácil ver que Jesus passou muito mais tempo em compromissos pessoais do que o tempo que ele passava com as multidões. Ele conversou com os fariseus, ele não debateu com eles. Ele estava em suas casas, bem como na casa de seus amigos. Ele encontrou numa viagem de barco para a Galileia  um lugar propício para compartilhar a realidade do Reino enquanto se sentava ao lado de um poço em Samaria. Ele procurou Zaqueu para almoçar em sua casa quando uma grande multidão procurava sua atenção na rua.

Antes de você ressaltar que Jesus também falou com as grandes multidões, estou bem ciente disso! Não estou sugerindo que sejam maus os encontros que não são tão eficazes em ajudar as pessoas a abraçar a vida de seu Pai. Isso me fez pensar muito sobre o que eu faço em compromissos macro ou micro. Os compromissos macro (maiores) incluem: falar com grupos, publicar livros ou conteúdos no site, produzir podcasts ou gravações. Eu faço muito disso porque eu gostei e me sinto chamado a isso, mas estou consciente que essa não é a melhor forma de compartilhar experiências no mundo. Por isso, não sou contra isso, mas estou percebendo o quanto isso é limitado.

Embora Jesus tenha falado com multidões, ele não os buscou nem os reuniu. Ele não organizou e promoveu qualquer reunião, eles O encontraram. Mesmo assim, muitos das multidões o abandonaram por estarem confusos e desvinculados entre si. Foi o tempo extra que ele passou com seus discípulos e com outros que os ajudaram a obter o que tinham perdido anteriormente. Os momentos mais formativos da minha jornada não vieram de palestras, mas de compromissos pessoais.

Não estou dizendo que grandes multidões são malvadas e as pequenas são boas. Esta não é uma discussão que estou querendo levantar. Podemos dedicar tempo a ambos, mesmo que reconheçamos que a realidade da vida de Jesus acontece de melhor forma em conversas informais e com um grupo pequeno de pessoas, muito mais do que em reuniões em grande escala. O que está me incomodando é que tantas pessoas, especialmente aqueles que aspiram o ministério, seguem os compromissos “macro” (grandes) falando e publicando livros, passando um tempo enorme tentando construir uma audiência de estranhos do que crescendo em conversas com pessoas que já conhecem. Muitos estão preocupados com a expansão de sua influência, a construção de sua plataforma, a luta por cumprir seus compromissos e a promoção dos seus livros ou podcasts na esperança de ganhar força como especialista, quando as maiores oportunidades de compartilhar o Reino vivem nas relações que já possuem. Em conversas mais informais, todo mundo começa a participar, não apenas escritores talentosos ou falantes eloquentes.

E a menos que nosso espaço no mundo “macro” não cresça fora de nossas vidas em um nível pessoal, ele pode facilmente criar um ambiente onde as realidades do Reino são facilmente distorcidas. O sucesso de influenciar multidões massageia o nosso ego e até nos faz ganhar muito dinheiro. Deslumbrados pelas luzes e a popularidade do palco, muitos compram a falsa ideia de que aqueles que ocupam tais espaços são pessoas mais significativas e suas palavras refletem o coração de Deus. Mas será que é realmente assim?

Não estou convencido disso! As grandes audiências valorizam as realidades erradas, dá ênfase ao animador de platéia a despeito do sábio, exalta o empresário cheio de energia a despeito do servo humilde, dá mais importância à manipulação da dinâmica da multidão do que à integridade do diálogo aberto e honesto. O diálogo macro premia a ilusão bem trabalhada pela profundidade do personagem que criamos. As audiências realmente não conhecem o palestrante na frente deles, apenas a ilusão que eles querem criar e pode haver pouquíssima conexão entre eles.

Não precisamos procurar mais do que as acusações contra Bill Cosby, que viveu por décadas como um palestrante admirado no palco por seu humor e percepção, e no entanto, parece ter usado essa sua notoriedade para explorar as mulheres que buscavam sua ajuda. O fato de que não sabemos nos diz tudo sobre o que precisamos saber sobre o palco e pouco sobre o que deveríamos saber sobre a pessoa. Conheci um autor cristão bem popular, que estava tendo relações sexuais com sua namorada enquanto estava em processo de divórcio. Perguntei-lhe se ele vivia algum tipo de conflito em relação aos seus escritos e seu estilo de vida atual. Ele me respondeu: “Oh, você acha que estou tentando viver o que escrevo?”, ele disse isso como se eu fosse de um outro planeta. “Eu não estou. Eu sou um escritor em um mercado cristão. É assim que eu faço minha vida, eu sei como escrever o que eles querem ouvir”.

Quantas vezes você ficou decepcionado ao descobrir que a personalidade pública de uma pessoa estava em desacordo com sua vida privada? Anne Lamott escreveu: “Os homens mais desgraçados e às vezes quase malvados que eu conheci eram todos escritores que possuíam best-sellers”. A maioria das pessoas não-racionais que já conheci escreveram livros sobre relacionamentos. Observar como alguém trata seu cônjuge, seus funcionários e outros ao seu redor irão dizer-lhe muito mais sobre eles do que qualquer coisa que eles compartilhem em um palco.

Nem todos no palco são uma fraude, há alguns que oferecem uma voz genuína e compassiva, mas são poucos. A busca do palco torce algo em nós, colocando auto-promoção acima das pessoas e a maioria se torna uma caricatura em vez de ser uma pessoa genuína, acabam aperfeiçoando slogans bonitos e três passos fáceis que nunca funcionam. Para mantê-lo, você deve perpetuar a ilusão e manipular as pessoas ao seu redor. É por isso que as pessoas em um palco atuam de maneira diferente daquela na vida real, com os tons que eles usam e o comportamento que eles exibem. Eles vivem em ilusões criando comunidades falsas para os atrair a partir da necessidade de pertencer, oferecem sabedoria “especial” e insights para fazê-los se sentir acima dos outros e convencem as pessoas, que nunca o conheceram, que amam e se preocupam com as pessoas. Por que não conseguimos perceber a falsidade em tudo isso?

Enquanto isso, as pessoas de sabedoria profunda moram perto da nossa casa, inexploradas. Os homens e as mulheres que conheci nessa jornada que são mais cristãs e que mais me impactaram não vivem em um palco, nem têm um site. Eles se contentam em conhecer seu amor pelos outros e os compromissos com eles são muito mais frutíferos. Portanto, devemos usar o mundo macro como conhecimento de causa. Não é maligno, mas com certeza essa realidade se presta a dar importância às realidades erradas. A cultura da celebridade desfigura quase todos os que o tocam. É mais fácil ser percebido como especialista em um palco do que viver como um irmão ou uma irmã em uma jornada. O palco permite que você seja inquestionável e diga coisas para as pessoas que você não teria coragem de fazê-lo cara a cara. Quantos sermões você já ouviu que eram na verdade exortações veladas para a alguém que ofendeu o palestrante? Eu também fiz isso, pelo que muito me arrependi, mas é uma saída de covarde.

Eu não desencorajaria a colocar sua voz no palco de uma conferência, no entanto, se for o caso Deus o colocará nessa oportunidade. Eu faço todas essas coisas porque sei que isso pode ajudar as pessoas que nunca encontrarei, mas ao mesmo tempo sei que essas coisas não são as coisas mais importantes que faço. Talvez devamos ter a mesma prioridade em nossas vidas que vemos no evangelho, cerca de 80% do nosso tempo dedicado às micro conversas que verdadeiramente importam, e apenas 20% para o público sem rosto, como uma forma de plantar sementes. E esses 20% é melhor quando a multidão é orgânica, feito de pessoas que querem buscar ajuda e não quando foi planejada através da auto-promoção.

Vamos valorizar e priorizar nossas relações pessoais mais do que tudo. Esta não foi uma mudança filosófica para mim, mas sim, algo que foi transformado em mim a partir da experiência. Comecei a notar onde o Reino realmente prospera e raramente isso acontece em um palco. Esse ambiente é um princípio de oferta unidimensional em um formato de tamanho único, em vez de ajudar alguém a dar um próximo passo em sua jornada. Em um recente vôo para casa, acabei em uma conversa com um homem bastante desanimado, e foi uma conversa muito mais poderosa do que qualquer outra conversa ou apresentação que tive na viagem em si. Isso me lembra novamente que Deus realmente resgata uma ovelha de cada vez e o poder real do seu Reino vem através de relações pessoais e amizades crescentes muito mais do que eventos, encontros ou reuniões. Então procure a próxima conversa que Jesus tem para você, com um velho amigo no telefone, um estranho na fila no mercado ou um vizinho por cima da cerca. Nada oferece mais oportunidades para as pessoas envolverem a realidade de Deus do que isso.

Os “Dones” que conheci não estão procurando um sermão mais atraente, mas um ambiente diferente onde as pessoas aprendem através do diálogo, onde não são pressionadas pela conformidade do pensamento, mas são estimuladas para explorar sua própria transformação. Isso não minimiza os dons de ensino e encorajamento, mas os reestrutura em um ambiente diferente, e muito mais desafiador, onde a qualidade de alguém é mais importante do que sua habilidade de transformar ideias em slogans.

Claro que as conferências são um ótimo modelo de negócios. É fácil monetizar a conversa macro. Nossa cultura está toda voltada para isso. Mas é impossível monetizar a micro conversa e para aqueles que procuram ganhar a vida através do Evangelho, isso é um problema. Não é verdade? Vamos ver isso na próxima reflexão.

Wayne Jacobsen
Tradução livre do artigo “The Phenomenon of The Dones” de https://www.lifestream.org/the-phenomenon-of-the-dones/
wayne


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