Ir para conteúdo
Anúncios

Pecado

A definição mais comum para pecado é “infringir normas divinas”. Millard Erickson, em sua teologia sistemática, define pecado como “qualquer falta de conformidade, ativa ou passiva, com a lei moral de Deus. Isso pode ser uma questão de ato, de pensamento ou de disposição”. A ênfase recai so­bre conformidade com a lei, e isso pressupõe uma autoridade legisladora. Nesse caso, estamos em sérias dificuldades, pois essa definição de pecado já não faz o menor sentido para a maioria de nossos vizinhos e, para falar a verdade, nem para nós, que sabemos que nem tudo o que é legal é moral e nem tudo o que é moral é legal. Quem pretende convencer alguém de que pecado é desobedecer às leis de Deus sai perdendo de três a zero. Esse papo de normas, leis e regras está descartado – um a zero. A ideia de um Deus autoritário, aliás, de qualquer noção de autoridade, também já era –dois a zero. E mesmo que seja verdadeiro que pecado é infringir leis divi­nas, as pessoas perguntam: “E daí, que diferença isso faz?” – três a zero.

Isso nos coloca no contexto do relativismo ético. Nem mesmo práti­cas como matar, mentir e roubar podem ser consideradas unânimes na definição de pecado. Isto é, todo mundo concorda que é pecado matar, mas quase todo mundo também concorda que matar o sujeito que estu­prou aquela menininha linda do quinto andar não é pecado. Todo mundo concorda que mentir é pecado. Mas quase todo mundo também concorda que mentir para preservar o emprego não é pecado. Todo mundo con­corda que roubar é pecado. Mas quase todo mundo também concorda que roubar do governo não é pecado. Em outras palavras, para que algo seja identificado como pecado é preciso que seja incluído na categoria do hediondo. Somente o que extrapola, o que agride até mesmo as cons­ciências mais degeneradas pode ser considerado pecado. E, mesmo as­sim, há controvérsias.

Afinal, o que é pecado? Como definir pecado para a sociedade con­temporânea? Poderíamos teologizar, observando os três estágios, seguindo a ordem mais correta que evolui (ou decai) de (1) pecado original – rebe­lião – para (2) natureza humana corrompida, isto é, a inclinação interior para o mal, que resulta em (3) práticas pecaminosos. A teologia bíblica concorda que existe a dimensão de pecado restrita a atos e praticas: o que fazemos ou o que deixamos de fazer, em razão das leis que expressam e revelam o caráter de Deus. Há uma lógica nos imperativos morais bíblicos: fomos criados à imago Dei e, nesse caso, nossa plena humanidade deve de­senvolver — se em conformidade com o Deus que expressamos e de quem derivamos. Em outras palavras, se Deus é amor, não podemos ser ódio, e por isso não podemos matar – banir pessoas de nossa existência. Não podemos mentir, porque Deus é a verdade, e somente se relaciona com o que é verdadeiro. Nosso vínculo com Deus, de modo que sejamos intei­ros, completos, saudáveis e equilibrados, depende de funcionarmos em conformidade com seu caráter e cora sua natureza. Nesse caso, as regras e leis divinas são muito mais uma espécie de “manual do proprietário” do que imposições de uma divindade melindrosa. Quando a tradição de espiritualidade judaico–cristã fala de “fazer e deixar de fazer”, está falan­do de “pecados”, no plural.

Mas a tradição de espiritualidade judaico–cristã apresenta o pecado também em outra dimensão. Pecado é um estado de rebelião contra Deus, uma recusa de submissão, uma pretensão de autonomia (ser lei para si mesmo) em relação a Deus. Nesse caso, pecado é um status diante de Deus, Pecado, então, é também uma posição que ocupamos em relação a Deus, o que define a maneira como nos relacionamos com ele. A Bíblia diz que todos os que estão em rebelião contra Deus são filhos da desobediência, sobre quem se manifesta a ira de Deus.u> Agora já não estamos falando em “fazer e deixar de fazer”, mas em uma atitude em relação a Deus, pecado, no singular.

Finalmente, pecado é um estado de ser. Aqueles que estão em rebelião, na posição de filhos da desobediência, estão “na carne”, alheios à vida de Deus, vivendo com seus próprios recursos e impossibilitados de agradar a Deus, pois o ser humano distante de Deus pode até ter o desejo de fazer o bem, mas é escravizado pelo mal, pois está sob a ação dos espíritos que operam sobre os filhos da desobediência.17 Já não se trata de uma atitude em relação a Deus, nem mesmo de “fazer ou deixar de fazer”. Agora, peca­do é uma inclinação, uma disposição interior, uma tendência para o mal. Nesse caso, o ser humano é tão culpado por pecar quanto o tuberculoso é culpado por tossir. O problema já não é a tosse, mas a tuberculose.

Precisamos traduzir isso para nossos vizinhos. Jesus fez isso com uma história: a parábola do Filho Pródigo.19 Contou a respeito do menino rico que pediu a herança em vida, “se mandou” da casa do pai (reivindicou sua autonomia), “torrou a grana” como se não houvesse amanhã (desperdiçou a si mesmo e seus recursos) e acabou sozinho e pobre (decaiu de seu status), restando–lhe apenas duas alternativas: viver com os porcos (bestializado) ou voltar para a casa do pai (arrependido, após cair em si e cair de si). Eis algumas ilustrações de pecado. Pecado é uma opção pela auto–suficiência que gera em nós uma ilusão de potência e faz–nos desperdiçar recursos como se fossem inesgotáveis, fazendo–nos descer a ladeira até a desumanização. Pecado anestesia. Pecado ilude. Pecado drena. Pecado bestializa. Pecado desumaniza.

O melhor caminho para compreender o pecado é tratá–lo em termos existenciais: que tipo de gente você pensa que é? Que tipo de gente você está se tornando? Que tipo de gente você gostaria de ser? Que tipo de gente você sabe que é? Quando chegamos a esse ponto da conversa, ela tem dois caminhos possíveis. O auto–engano, e, nesse caso, não adianta conversar, pois quem não quer ouvir ou não está pronto para ouvir não receberá nem conceitos nem histórias. Ou a autoconsciência, possível para qualquer pessoa honesta que tem espelho em casa. A autoconsciência é a porta da conversão.

Ed René Kivitz
Extraído do livro: Vivendo com Propósitos
http://www.edrenekivitz.com/
ed-rene-kivitz

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: