Um dia você entenderá

Dentro do mundo, há um mundo, o único que de fato existe para mim, o meu mundo, eu. Eu, que apesar de estar cercado de milagres, de cuidados, de bilhões de processos que se completam, se vinculam, se desdobram em outros e outros e outros que me mantém vivo, que fazem com que meu corpo funcione e eu nem perceba, que alimentam minha mente em sonhos, que enchem meus pulmões de ar, que me vela enquanto durmo e mantém meu coração funcionando, enquanto não vejo, enquanto não sei, que me livra da morte apesar de minha ignorância. Estou vivo, sou vida, mas… não vejo quase nada.

Aqui, no tempo da relatividade, estou condicionado aos meus limites, às parcas percepções sensoriais entupidas de tantas impressões, intoxicado por tanto medo, pela cultura que me formata e me cega, que dificulta o que deveria ser mais simples, o que deveria aquietar-me, pacificar-me, aprendendo a confiar no fluxo natural da existência que organiza o caos, que sustenta as estrelas, abriga o animal mais exótico no deserto mais distante, que alimenta o pássaro despreocupado com o amanhã, o bebê, inocente, limpo, aberto, que chegou faz pouco tempo sem nenhuma pergunta a fazer.

Por que tanta “pré-ocupação”? Por que tanta resistência em simplesmente descansar? Deixar que o silêncio seja eloquente, ouvir o que o barulho esconde, perceber no simples, no agora, no cotidiano, na brisa, nos movimentos sutis da vida que projeta no caminho os grandes sinais, as maiores lições às respostas que precisamos?

Talvez as coisas não sejam assim tão difíceis. É provável que nossa pressa, aquela angústia que nem sabemos o que é, esteja projetada nos acontecimentos, nos outros, em situações que ganham densidade, peso, sem que precisasse ser assim… É provável que seja essa carga pesada que disfarçadamente carregamos, que tantas vezes negamos e fingimos não ver. É provável, que o desgosto da vida, a dureza da realidade, a crueza de cada história, de repente, fique leve, alivie.

É provável que um dia percebamos, que enxerguemos de longe para finalmente entender, que tudo estava conectado, que tudo é uma coisa só, que não há experiências vãs e, no silêncio, na quietude, na pacificação que começa dentro, é provável que um dia finalmente entendamos que, noite e dia, luz e trevas, dor e alívio, tudo, existiu para nos fazer aprender a amar, a finalidade de toda a experiência.

Flávio Siqueira
www.flaviosiqueira.com
www.radioinverso.com
Extraído do livro: Mensagens que Chegam pela Manhã
flavio-siqueira


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s